quarta-feira, 31 de outubro de 2012

LA PIEDRA ESTÁ EN EL AIRE... AGACHÁTE!




Caminho por uma rua deserta. Sei que estou em Cartagena. Como vim parar aqui? Aliás, como sei que esta cidade é Cartagena, se não há nenhuma indicação disso? Eu que nunca viajei para fora do estado! 
O calçamento é de pedras largas, maiores  que os paralelepípedos comuns. As casas são todas antigas, as paredes com a pintura gasta, os madeirios das janelas apodrecem. Ervas tomam os espaços que já foram jardins. Este conjunto já teve estilo, suponho. Ouço um latido sumindo ao longe enquanto exploro o local. Demoro-me observando grafites gravados nos muros. Em um deles está escrito: 



la piedra está en el aire... agacháte!



Mas é tarde demais. De repente sinto uma pressão na têmpora. Um calor molhado que não posso enxergar de imediato mas que só pode ser sangue, começa a escorrer. Levo a mão à testa mas o  líquido é branco como leite. Provo e confirmo: é leite! Uma mulher aparece não sei de onde e me lambe a cara. Em um instante aparece outra. E mais outra. Estou tão aturdido com a situação que não consigo reagir. Suas mãos e bocas colhem aquele inexplicável líquido. Elas têm sede, fome, sei lá. Quando finalmente se saciam deixam-me ali mesmo. O leite parou de brotar. Não tenho forças para seguí-las. A cabeça está latejando. Fecho os olhos. Adormeço?
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No dia seguinte estou no consultório de um analista que tenta me explicar os significados de Cartagena, pedra e, principalmente, leite em meu sonho. Ele se veste e se comporta como um lord inglês. Não o escuto. Estou ocupado demais perguntando me qual o significado de sonhar com um analista que explica, em um sonho, o significado de outro sonho.
                   E acordo. 

                  Em Bogotá.

DIA BESTA



Home, de Beata Bieniak


Hoje o mundo acabou
para um homem que enfartou enquanto dormia
e também para a velhinha que levou um tiro
no assalto ao banco de penhores.

Hoje o mundo acabou
para a mãe que se perdeu do filho
na algazarra da praça, já tem quase duas horas.
Meu Deus? Meu Deus!

Hoje o mundo acabou
para o amante rejeitado que não entende
que o amor, às vezes finda e pronto.

Hoje o mundo acabou
para tanta gente que nem morreu!
A maioria abandonou um sonho
ganhou dois quilos
endividou-se mais ainda
ficou em silêncio
fechou os olhos
gritou sem motivo
saiu de casa
teve dor nas costas
jogou na loteria
fechou uma porta
matou uma garrafa,
e não aproveitou o dia.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

O REMORSO




Em 1976, Jorge Luis Borges (1899-1986),  já quase um octagenário lança o livro A Moeda De Ferro. O livro traz o poema O remorso (El remordimiento, no original).  Um poema que é uma declaração de sua infelicidade. Imediatamente aclamado pela crítica, nele vemos um Borges diferente daquele não baixava a guarda, aquele que certa vez disse "A cegueira é clausura, mas também libertação, solidão propícia ao  ato criador, uma chave, uma álgebra". 
El Remordimiento é um  acerto de contas com o passado, com a solidão, com a vida.

El remordimiento

He cometido el peor de los pecados 
Que un hombre puede cometer. No he sido 
Feliz. Que los glaciares del olvido 
Me arrastren y me pierdan, despiadados. 
Mis padres me engendraron para el juego 
Arriesgado y hermoso de la vida, 
Para la tierra, el agua, el aire, el fuego. 
Los defraudé. No fui feliz. Cumplida 
No fue su joven voluntad. Mi mente 
Se aplicó a las simétricas porfías 
Del arte, que entreteje naderías. 
Me legaron valor. No fui valiente. 
No me abandona. Siempre está a mi lado 
La sombra de haber sido un desdichado.





As três traduções que selecionei fazem interessantes escolhas. Todas bem distintas. Aqui Antônio Cícero justifica maravilhosamente o porquê de naderias ao invés da fácil ninharias. Coisa de quem sabe o que diz e pensa o que escreve.




O remorso

Cometi o pior desses pecados 
Que podem cometer-se. Não fui sendo 
Feliz. Que os glaciares do esquecimento 
Me arrastem e me percam, despiedados. 
Plos meus pais fui gerado para o jogo 
Arriscado e tão belo que é a vida, 
Para a terra e a água, o ar, o fogo. 
Defraudei-os. Não fui feliz. Cumprida 
Não foi sua vontade. A minha mente 
Aplicou-se às simétricas porfias 
Da arte, que entretece ninharias. 
Valentia eu herdei. Não fui valente. 
Não me abandona. Está sempre ao meu lado 
A sombra de ter sido um desgraçado. 

(tradução: Fernando Pinto do Amaral)





O remorso

Cometi o mais fatídico pecado
que um homem pode cometer. Não fui
feliz. Que o gelo que do olvido flui
me arraste e perca, desapiedado. 

Meus pais forjaram-me foi para o jogo
incerto, mas esplêndido, da vida
e para a terra, o ar, a água e o fogo.
Fraudei-os. Não fui feliz. Descumprida

ficou-lhes a vontade adolescente.
Ative-me às simétricas porfias
das artes, que entretecem ninharias.

Legaram-me valor. Não fui valente.
Não me abandona – sempre está a meu lado 
– a sombra de ter sido um desgraçado.

(tradução: Gil Pinheiro)


O remorso

Cometi o pior dos pecados
Que um homem pode cometer. Não fui
Feliz. Que os glaciares do esquecimento
Me arrastem e me percam, desapiedados.
Meus pais me engendraram para o jogo
Arriscado e formoso da vida,
Para a terra, a água, o ar, o fogo.
Defraudei-os. Não fui feliz. Cumprida
Não foi sua jovem vontade. Minha mente
Se aplicou às simétricas porfias 
Da arte, que entretece naderias. 
Legaram-me coragem. Não fui valente.
Não me abandona. Sempre está a meu lado
A sombra de ter sido um desgraçado.

(tradução: Antônio Cícero)






COMO UM BUMERANGUE CEGO




Preciso de uma bebida. Um gin sem tônica, só gelo. Duplo.
A menina não parece diferente dessas adolescentes que vejo por aí: inconstante, incoerente, inconsequente.
A adolescência é como uma virose. É só manter os sinais vitais sob controle que ela vai embora sozinha.
O que me espanta é encontrar o mesmo ódio que Rick sentia por Julio e que tanto ele tentou apagar do seu destino. Como um bumerangue cego as coisas voltam. Mas só aquelas que queremos mandar para bem longe. O eterno retorno. Nietzsche deve estar dando cambalhotas de regojizo na tumba.
Preciso de uma música. Deixo o ipod na função shuffle para essas horas. Uma música escolhida ao acaso dentre três mil tem que dizer alguma coisa. É o meu I Ching particular. Aperto o botão e começa a tocar Last Goodbye, do Jeff Buckley.

Esse é nosso último abraço
Só preciso sonhar pra ver o seu rosto
Por quê não conseguimos superar esse muro ?
Baby, talvez porque eu não te conhecesse.

O shuffle não mente jamais.
Tento calcular o efeito disso tudo sobre Rick. Ele pode não conhecer bem a filha mas ela o conhece bem demais.
Minha dúvida é se ela descobriu sozinha ou se ele se identificou.
Essa garota é mesmo uma figura. Fez um bocado de gênero. Por exemplo, duvido que seu gosto musical seja mesmo hardcore. Não combina com seu gosto para poesia. Mas se gostar, que importância isso tem? O Rick adorava Destruction e a Ruth venerava The Clash. Eu mesmo já não fui fã de carteirinha do Pink Floyd? O gosto das pessoas evolui.
E quanto a poesia, não é que a fedelha é boa? Comete uns excessos, nada que não se possa corrigir. O principal, que é ter forma e o conteúdo, ela tem. É tudo que eu peço diariamente aos deuses da poesia: idéias e ritmo. Quem sabe essa experiência não vai acabar dando a ela, matéria prima para um grande poema ?
Preciso de um pedaço de queijo. O que tem na geladeira ?
Só um Lancashire já meio passado. Serve.
Preciso de um a palavra. Cadê meu dicionário?

Impotência

sf
1.falta de poder, força ou meios para realizar algo; impossibilidade
Ex.: teve que reconhecer a i. de seu exército diante das forças inimigas
2. qualidade, estado ou condição de impotente
3. incapacidade física
3.1. incapacidade, esp. masculina, para a cópula; falta de potência sexual


Preciso de outro gin.


A POESIA DE CHICO ARARIPE



Chico Araripe é poeta, músico, contador de histórias e de História. Além de frasista genial.
Sua poesia trata de temas que me são caros: amores arrebatadores, nossas existência e resistências. Não bastasse isso há também cadência, talento de quem conhece (e mais do que tudo, sente) os segredos do rítmo.

Confesso que invejo respeitosamente os quatro últimos versos do seu poema FANTASIA, a seguir.


Vi bater em teu rosto
uma brisa quente que soprava. Do inferno?
Em teus cabelos ao vento,
as pontas amareladas,
imitavam chamas que carbonizavam meu coração.
E tu ria.
E não emprestava uma gota do suor
que de tua cara caía
para apagar a dita chama
que em meu peito ardia.
Negra vadia! Amaste me tão profissionalmente
que parecia a funcionária, que fria,
carimbou o cheque devolvido que pagou
a minha fantasia.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

SENTIDOS


Em menos de um minuto, enquanto os outros que tinham chegado antes de nós não tinham nada na mesa, o nosso champanhe chegava, e logo depois dele o prato de prata e a sua carga de gelo e conchas, que continham os escarros reluzentes de vísceras salobras que nós não deixávamos de fingir que adorávamos.

Ian McEwan, em Serena

Lembro da cor
sempre fui doido pela cor
só depois os outros sentidos assomaram.


Lembro dos sons
de água batendo, água viva
percussões, cordas, teclas, sopros, botões.

Lembro do cheiro de mar
de ostra fresca, mole, se mexendo
enquanto eu a sorvia de uma só vez.

Lembro da textura

de pétala, véu, veludo.
Guardava segredos. E no entanto era franca!

Lembro do gosto

de carne crua, de sal, de luta. Meu céu
da boca dormente de tanto suco.




domingo, 28 de outubro de 2012

INVENTÁRIO



Depois que escrevi que o show do Steven Wilson estava no meu TOP 5, quiçá TOP 3, fiquei matutando quais seriam os outros shows de rock da minha vida. (Maldito seja  Nick Hornby que me infligiu essa obsessão por listas).

Assisti a muitos desde o remoto ano de 1975 quando pasmei por Rick Wakeman no Maracanãzinho, levado por amigos mais velhos quando eu tinha apenas 9 anos (praticamente a idade da minha caçula roqueira). Depois de um longo intervalo veio a mega apresentação do  Kiss e a estupenda passagem do Van Halen, ambas em 83. 
Estava adolescendo e o rock era (quase) tudo pra mim. Frequentava o Circo Voador praticamente todos os fins de semana, onde testemunhei ao primeiro show do Ultraje à Rigor no Rio, muitos do Lobão (com e sem Os Ronaldos), Azul Limão, Água Brava, Dorsal, Camisa de Vênus, Made in Brazil, Stress, Raul Seixas com Marcelo Nova, 14BIS,...
Em 85 babei pelo Iron, Ozzy, Withesnake e AC/DC no Rock in Rio (ainda sem numeração).  Veio o segundo e foi a vez do Guns e Judas. No terceiro só deu Neil. 
Todos do Dream Theater e do Glenn Hughes, Deep Purple,... A lista é bem longa.


E sem esquecer dos progressivos Akinetón Retard, Yes, Premiata, Flor de Lótus, Le Orme, Nektar, Trettioarica Kriget, Bacamarte, Sagrado Coração da Terra, Quaterna Requiem,  ...





Mas shows são como vinho. Não podem ser medidos apenas pelo rótulo ou pela safra. Tão ou mais importante é memória afetiva que deixam. E nesse quesito não posso deixar de ascender alguns dos últimos: Roger Waters (cada um dos três teve uma toque diferente), o primeiro do Pain of Salvation,  para pouco mais de 200 pessoas, com a cidade debaixo de uma tormenta; o do Pearl Jam, ano passado na Praça da Apoteose, onde, não me pergunte o porquê, fez-se magia.


Como não pretendo parar, um dia quem sabe levarei meus netos (as filhas de vez em quando já vão comigo), este é um inventário que seguirá, inevitavelmente, em construção. 





LONG LIVE AT ROCK AND ROLL!





sexta-feira, 26 de outubro de 2012

GET ALL YOU DESERVE



Há uma semana assisto ininterruptamente ao recém lançado DVD Get All You Deserve, de Steven Wilson, registro do show realizado na Cidade do México na turnê que percorreu a América Latina no primeiro semestre deste ano. E que tive a doce alegria presenciar em São Paulo no dia 21 de abril. Inesquecível!
Veja bem, já assisti a muitos shows maravilhosos mas com certeza esse está no TOP 5, quiçá no TOP 3!




Wilson é realmente um artista impressionante. Workaholic, sempre desenvolveu  vários projetos simultaneamente, todos, no mínimo, muito bons: Porcupine Tree (o mais famoso e cultuado deles), no-man (em minúsculas mesmo), Bass Comunication, I.E.M., Blackfield e o recente Storm Corrosion. Sempre cercado de gente pra lá de competente.

Além disso é produtor e músico de estúdio requisitado, já tendo trabalhado com artistas como Marillion, Opeth, Paatos, Dream Theater,  Anathema e muitos outros.

Algumas amostras do estilo (e da marca) do cara: 


 Trains
 Porcupine Tree

All Sweet Things
no-man

Dwarf Artillery
Bass Communion


 The Gospel according to the IEM
I.E.M.



End of the world
Blackfield

Drag Ropes
Storm Corrosion

Harmony Korine
Steven Wilson

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

COMO BOLOR QUE POR FRESTAS



Foi só alardear aos quatro ventos (aos oito bits)
que a superfície jazia em calmaria
que primavera fez-se inverno novamente
suas folhas e paz varridas.


À espreita, nunca distraída
corre pelas veias e vielas, despida
de calço, de oriente e de sentido
um misto de terçã e vertigem.

Como um bolor que por frestas
entranha-se
e aos poucos emana seus maus ares.









segunda-feira, 22 de outubro de 2012

VESTIA UM CASAQUINHO AMARELO DE LINHA, USAVA ÓCULOS




Há uns três meses, numa excursão botequineira pela região do Estácio, entre azulejos descontinuados e cobogós abandonados, pus-me a ranquear batidas de maracujá. Lá pelas tantas, mais alegre do que triste, comecei a conversar com um sujeito que bebia no mesmo balcão do que eu. Assuntos de pinguço: clima, futebol, bons tempos. Palavras nascidas sem causa ou consequência. Papo vai, papo vem,  nem sei o porquê, falei de minhas filhas. 
Foi a senha para que ele retirasse do bolso a fotografia de uma menininha. Devia ter uns três, quatro anos no máximo. Vestia um casaquinho amarelo de linha, usava óculos. Chorava no momento em que a foto foi tirada. E tentava dizer alguma coisa. O choro lhe franzia a testa. Suas palavras não foram capturadas pela imagem.
Depois de observar a foto alguns segundos me disse: "Eu já perdi duas filhas".
Eu precisava falar alguma coisa para preencher o silêncio insuportável que se instalou e tomou o bar, talvez toda a cidade. Só saiu:  "Sinto muito. Foi acidente?"
Ele se recompôs, fitou-me com olhos ocos e disse baixinho: "Graças a Deus elas não morreram. Eu é que morri pra elas".
Virei o copo.

domingo, 21 de outubro de 2012

SEMPRE SOUBE



Pai de meninas, sempre soube que mais cedo ou mais tarde esses versos acabariam ecoando. Mesmo assim não esperava que ressoassem tão serenos.
Bem, como tudo já está dito na poesia do Chico, não me estendo nesta prosa.



AS MINHAS MENINAS
Olha as minhas meninas
As minhas meninas
Pra onde é que elas vão
Se já saem sozinhas
As notas da minha canção
Vão as minhas meninas
Levando destinos
Tão iluminados de sim
Passam por mim
E embaraçam as linhas
Da minha mão
As meninas são minhas
Só minhas na minha ilusão
Na canção cristalina
Da mina da imaginação
Pode o tempo
Marcar seus caminhos
Nas faces
Com as linhas
Das noites de não
E a solidão
Maltratar as meninas
As minhas não
As meninas são minhas
Só minhas
As minhas meninas
Do meu coração





terça-feira, 16 de outubro de 2012

AINDA SOBRE O CINZA

(concluindo ESTE)

Já fui atrás de azuis. Eu era daqueles que não podia ver um azul dando bobeira por aí que não sossegava enquanto não o conquistasse. Depois colecionei amarelos. E olha que amarelos não se deixam aprisionar facilmente. Pois não é que agora descobri que os cinzas me bastam!