terça-feira, 30 de outubro de 2012

A POESIA DE CHICO ARARIPE



Chico Araripe é poeta, músico, contador de histórias e de História. Além de frasista genial.
Sua poesia trata de temas que me são caros: amores arrebatadores, nossas existência e resistências. Não bastasse isso há também cadência, talento de quem conhece (e mais do que tudo, sente) os segredos do rítmo.

Confesso que invejo respeitosamente os quatro últimos versos do seu poema FANTASIA, a seguir.


Vi bater em teu rosto
uma brisa quente que soprava. Do inferno?
Em teus cabelos ao vento,
as pontas amareladas,
imitavam chamas que carbonizavam meu coração.
E tu ria.
E não emprestava uma gota do suor
que de tua cara caía
para apagar a dita chama
que em meu peito ardia.
Negra vadia! Amaste me tão profissionalmente
que parecia a funcionária, que fria,
carimbou o cheque devolvido que pagou
a minha fantasia.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

SENTIDOS


Em menos de um minuto, enquanto os outros que tinham chegado antes de nós não tinham nada na mesa, o nosso champanhe chegava, e logo depois dele o prato de prata e a sua carga de gelo e conchas, que continham os escarros reluzentes de vísceras salobras que nós não deixávamos de fingir que adorávamos.

Ian McEwan, em Serena

Lembro da cor
sempre fui doido pela cor
só depois os outros sentidos assomaram.


Lembro dos sons
de água batendo, água viva
percussões, cordas, teclas, sopros, botões.

Lembro do cheiro de mar
de ostra fresca, mole, se mexendo
enquanto eu a sorvia de uma só vez.

Lembro da textura

de pétala, véu, veludo.
Guardava segredos. E no entanto era franca!

Lembro do gosto

de carne crua, de sal, de luta. Meu céu
da boca dormente de tanto suco.




domingo, 28 de outubro de 2012

INVENTÁRIO



Depois que escrevi que o show do Steven Wilson estava no meu TOP 5, quiçá TOP 3, fiquei matutando quais seriam os outros shows de rock da minha vida. (Maldito seja  Nick Hornby que me infligiu essa obsessão por listas).

Assisti a muitos desde o remoto ano de 1975 quando pasmei por Rick Wakeman no Maracanãzinho, levado por amigos mais velhos quando eu tinha apenas 9 anos (praticamente a idade da minha caçula roqueira). Depois de um longo intervalo veio a mega apresentação do  Kiss e a estupenda passagem do Van Halen, ambas em 83. 
Estava adolescendo e o rock era (quase) tudo pra mim. Frequentava o Circo Voador praticamente todos os fins de semana, onde testemunhei ao primeiro show do Ultraje à Rigor no Rio, muitos do Lobão (com e sem Os Ronaldos), Azul Limão, Água Brava, Dorsal, Camisa de Vênus, Made in Brazil, Stress, Raul Seixas com Marcelo Nova, 14BIS,...
Em 85 babei pelo Iron, Ozzy, Withesnake e AC/DC no Rock in Rio (ainda sem numeração).  Veio o segundo e foi a vez do Guns e Judas. No terceiro só deu Neil. 
Todos do Dream Theater e do Glenn Hughes, Deep Purple,... A lista é bem longa.


E sem esquecer dos progressivos Akinetón Retard, Yes, Premiata, Flor de Lótus, Le Orme, Nektar, Trettioarica Kriget, Bacamarte, Sagrado Coração da Terra, Quaterna Requiem,  ...





Mas shows são como vinho. Não podem ser medidos apenas pelo rótulo ou pela safra. Tão ou mais importante é memória afetiva que deixam. E nesse quesito não posso deixar de ascender alguns dos últimos: Roger Waters (cada um dos três teve uma toque diferente), o primeiro do Pain of Salvation,  para pouco mais de 200 pessoas, com a cidade debaixo de uma tormenta; o do Pearl Jam, ano passado na Praça da Apoteose, onde, não me pergunte o porquê, fez-se magia.


Como não pretendo parar, um dia quem sabe levarei meus netos (as filhas de vez em quando já vão comigo), este é um inventário que seguirá, inevitavelmente, em construção. 





LONG LIVE AT ROCK AND ROLL!





sexta-feira, 26 de outubro de 2012

GET ALL YOU DESERVE



Há uma semana assisto ininterruptamente ao recém lançado DVD Get All You Deserve, de Steven Wilson, registro do show realizado na Cidade do México na turnê que percorreu a América Latina no primeiro semestre deste ano. E que tive a doce alegria presenciar em São Paulo no dia 21 de abril. Inesquecível!
Veja bem, já assisti a muitos shows maravilhosos mas com certeza esse está no TOP 5, quiçá no TOP 3!




Wilson é realmente um artista impressionante. Workaholic, sempre desenvolveu  vários projetos simultaneamente, todos, no mínimo, muito bons: Porcupine Tree (o mais famoso e cultuado deles), no-man (em minúsculas mesmo), Bass Comunication, I.E.M., Blackfield e o recente Storm Corrosion. Sempre cercado de gente pra lá de competente.

Além disso é produtor e músico de estúdio requisitado, já tendo trabalhado com artistas como Marillion, Opeth, Paatos, Dream Theater,  Anathema e muitos outros.

Algumas amostras do estilo (e da marca) do cara: 


 Trains
 Porcupine Tree

All Sweet Things
no-man

Dwarf Artillery
Bass Communion


 The Gospel according to the IEM
I.E.M.



End of the world
Blackfield

Drag Ropes
Storm Corrosion

Harmony Korine
Steven Wilson

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

COMO BOLOR QUE POR FRESTAS



Foi só alardear aos quatro ventos (aos oito bits)
que a superfície jazia em calmaria
que primavera fez-se inverno novamente
suas folhas e paz varridas.


À espreita, nunca distraída
corre pelas veias e vielas, despida
de calço, de oriente e de sentido
um misto de terçã e vertigem.

Como um bolor que por frestas
entranha-se
e aos poucos emana seus maus ares.









segunda-feira, 22 de outubro de 2012

VESTIA UM CASAQUINHO AMARELO DE LINHA, USAVA ÓCULOS




Há uns três meses, numa excursão botequineira pela região do Estácio, entre azulejos descontinuados e cobogós abandonados, pus-me a ranquear batidas de maracujá. Lá pelas tantas, mais alegre do que triste, comecei a conversar com um sujeito que bebia no mesmo balcão do que eu. Assuntos de pinguço: clima, futebol, bons tempos. Palavras nascidas sem causa ou consequência. Papo vai, papo vem,  nem sei o porquê, falei de minhas filhas. 
Foi a senha para que ele retirasse do bolso a fotografia de uma menininha. Devia ter uns três, quatro anos no máximo. Vestia um casaquinho amarelo de linha, usava óculos. Chorava no momento em que a foto foi tirada. E tentava dizer alguma coisa. O choro lhe franzia a testa. Suas palavras não foram capturadas pela imagem.
Depois de observar a foto alguns segundos me disse: "Eu já perdi duas filhas".
Eu precisava falar alguma coisa para preencher o silêncio insuportável que se instalou e tomou o bar, talvez toda a cidade. Só saiu:  "Sinto muito. Foi acidente?"
Ele se recompôs, fitou-me com olhos ocos e disse baixinho: "Graças a Deus elas não morreram. Eu é que morri pra elas".
Virei o copo.

domingo, 21 de outubro de 2012

SEMPRE SOUBE



Pai de meninas, sempre soube que mais cedo ou mais tarde esses versos acabariam ecoando. Mesmo assim não esperava que ressoassem tão serenos.
Bem, como tudo já está dito na poesia do Chico, não me estendo nesta prosa.



AS MINHAS MENINAS
Olha as minhas meninas
As minhas meninas
Pra onde é que elas vão
Se já saem sozinhas
As notas da minha canção
Vão as minhas meninas
Levando destinos
Tão iluminados de sim
Passam por mim
E embaraçam as linhas
Da minha mão
As meninas são minhas
Só minhas na minha ilusão
Na canção cristalina
Da mina da imaginação
Pode o tempo
Marcar seus caminhos
Nas faces
Com as linhas
Das noites de não
E a solidão
Maltratar as meninas
As minhas não
As meninas são minhas
Só minhas
As minhas meninas
Do meu coração