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segunda-feira, 29 de outubro de 2012

SENTIDOS


Em menos de um minuto, enquanto os outros que tinham chegado antes de nós não tinham nada na mesa, o nosso champanhe chegava, e logo depois dele o prato de prata e a sua carga de gelo e conchas, que continham os escarros reluzentes de vísceras salobras que nós não deixávamos de fingir que adorávamos.

Ian McEwan, em Serena

Lembro da cor
sempre fui doido pela cor
só depois os outros sentidos assomaram.


Lembro dos sons
de água batendo, água viva
percussões, cordas, teclas, sopros, botões.

Lembro do cheiro de mar
de ostra fresca, mole, se mexendo
enquanto eu a sorvia de uma só vez.

Lembro da textura

de pétala, véu, veludo.
Guardava segredos. E no entanto era franca!

Lembro do gosto

de carne crua, de sal, de luta. Meu céu
da boca dormente de tanto suco.




quinta-feira, 5 de julho de 2012

COMIDA DE BOTEQUIM



Não gosto do concurso que, todos os anos, lota os bares na disputa pelo quitute perfeito. A maioria das invenções deixa muito a desejar. Há exceções, claro. O bolinho de feijoada do Aconchego Carioca, por exemplo, despontou numa edição do concurso, surpreendeu e continua supimpa. 


Mas o que gosto mesmo é da comida de botequim autêntica, aquela que se repete ano após ano, década após década com a mesma simplicidade e ao mesmo tempo tanto mistério. Quem já tentou reproduzir em casa uma carne assada como algumas que existem (e resistem) por aí sabe do que estou falando.


De inspiração portuguesa, com temperos africanos, mãos nordestinas e jeito carioca, a comida servida nos nossos bares é que merece ser tombada como patrimônio da humanidade.


A lista de motivos é imensa: o clássico ovo colorido, linguiça acebolada, pastéis num sem fim de sabores, coxinhas, bolinhos de bacalhau, jilós ao vinagrete.


E as rabadas, a galinha ensopada  (em alguns lugares serve-se galo!), os mocotós!


Ah, os mocotós!!!


Baixa gastronomia? Faça-me rir!