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segunda-feira, 24 de junho de 2013

TEMPOS EXEMPLARES

Mensagem À Poesia, de Vinicius de Moraes, é um poema muito adequado a esses tempos exemplares que estamos vivendo (obrigado Whittman). 


Minha fitinha K-7 (sim, isso existiu e aqui ainda resiste), de 1977. Com treze poemas recitados/cantados pelo próprio Vinicius.


MENSAGEM À POESIA

Não posso
Não é possível
Digam-lhe que é totalmente impossível 
Agora não pode ser 
É impossível 
Não posso. 
Digam-lhe que estou tristíssimo, mas não posso ir esta noite ao seu encontro.
Contem-lhe que há milhões de corpos a enterrar 
Muitas cidades a reerguer, muita pobreza pelo mundo. 
Contem-lhe que há uma criança chorando em alguma parte do mundo 
E as mulheres estão ficando loucas, e há legiões delas carpindo 
A saudade de seus homens; contem-lhe que há um vácuo 
Nos olhos dos párias, e sua magreza é extrema; contem-lhe 
Que a vergonha, a desonra, o suicídio rondam os lares, e é preciso reconquistar a vida 
Façam-lhe ver que é preciso eu estar alerta, voltado para todos os caminhos 
Pronto a socorrer, a amar, a mentir, a morrer se for preciso. Ponderem-lhe, com cuidado - não a magoem... - que se não vou 
Não é porque não queira: ela sabe; é porque há um herói num cárcere 
Há um lavrador que foi agredido, há um poça de sangue numa praça. 
Contem-lhe, bem em segredo, que eu devo estar prestes, que meus 
Ombros não se devem curvar, que meus olhos não se devem Deixar intimidar, que eu levo nas costas a desgraça dos homens 
E não é o momento de parar agora; digam-lhe, no entanto 
Que sofro muito, mas não posso mostrar meu sofrimento 
Aos homens perplexos; digam-lhe que me foi dada 
A terrível participação, e que possivelmente 
Deverei enganar, fingir, falar com palavras alheias 
Porque sei que há, longínqua, a claridade de uma aurora. 
Se ela não compreender, oh procurem convencê-la 
Desse invencível dever que é o meu; mas digam-lhe 
Que, no fundo, tudo o que estou dando é dela, e que me 
Dói ter de despojá-la assim, neste poema; que por outro lado 
Não devo usá-la em seu mistério: a hora é de esclarecimento 
Nem debruçar-me sobre mim quando a meu lado 
Há fome e mentira; e um pranto de criança sozinha numa estrada 
Junto a um cadáver de mãe: digam-lhe que há 
Um náufrago no meio do oceano, um tirano no poder, um homem 
Arrependido; digam-lhe que há uma casa vazia 
Com um relógio batendo horas; digam-lhe que há um grande Aumento de abismos na terra, há súplicas, há vociferações 
Há fantasmas que me visitam de noite 
E que me cumpre receber, contem a ela da minha certeza 
No amanhã 
Que sinto um sorriso no rosto invisível da noite 
Vivo em tensão ante a expectativa do milagre; por isso 
Peçam-lhe que tenha paciência, que não me chame agora 
Com a sua voz de sombra; que não me faça sentir covarde 
De ter de abandoná-la neste instante, em sua imensurável 
Solidão, peçam-lhe, oh peçam-lhe que se cale 
Por um momento, que não me chame
Porque não posso ir 
Não posso ir
Não posso. 

Mas não a traí. 
Em meu coração
Vive a sua imagem pertencida, e nada direi que possa Envergonhá-la. 
A minha ausência. 
É também um sortilégio 
Do seu amor por mim. 
Vivo do desejo de revê-Ia 
Num mundo em paz. 
Minha paixão de homem 
Resta comigo; minha solidão resta comigo; minha 
Loucura resta comigo. 
Talvez eu deva 
Morrer sem vê-Ia mais, sem sentir mais 
O gosto de suas lágrimas, olhá-la correr 
Livre e nua nas praias e nos céus 
E nas ruas da minha insônia. 
Digam-lhe que é esse 
O meu martírio; que às vezes 
Pesa-me sobre a cabeça o tampo da eternidade e as poderosas Forças da tragédia abastecem-se sobre mim, e me impelem para a treva 
Mas que eu devo resistir, que é preciso... 
Mas que a amo com toda a pureza da minha passada adolescência Com toda a violência das antigas horas de contemplação extática Num amor cheio de renúncia. 
Oh, peçam a ela 
Que me perdoe, ao seu triste e inconstante amigo 
A quem foi dado se perder de amor pelo seu semelhante 
A quem foi dado se perder de amor por uma pequena casa 
Por um jardim de frente, por uma menininha de vermelho 
A quem foi dado se perder de amor pelo direito 
De todos terem um pequena casa, um jardim de frente 
E uma menininha de vermelho; e se perdendo 
Ser-lhe doce perder-se... 
Por isso convençam a ela, expliquem-lhe que é terrível 
Peçam-lhe de joelhos que não me esqueça, que me ame 
Que me espere, porque sou seu, apenas seu; mas que agora 
É mais forte do que eu, não posso ir 
Não é possível 
Me é totalmente impossível 
Não pode ser não 
É impossível 
Não posso. 

sábado, 25 de maio de 2013

FERNANDO PESSOA E A ALMA DE CÔRNO


Antes tarde do que nunca.
Sou daqueles que acredita nas vidas secretas (reais ou apenas imaginadas), nas intenções, nas entrelinhas.
De forma que, para mim, a notícia da publicação de cinco sonetos inéditos de Fernando Pessoa pela revista Granta só ganhou peso quando li um deles, o Alma de Côrno. Que Pessoa era dedicado à expansão ninguém discute. Que seus 127 heterônimos dessem conta de quase tudo que é assunto acho possível, até provável. Mas não garanto, já que não sou estudioso nem pesquisador. Encontrar, portanto, um poema que trata de assunto tão mundano, foi uma upgrade na minha relação de longa data com o português.


Não nos enganemos, no soneto há bastante lirismo e erudição. Mas dessa vez, confesso, gostei mesmo foi da última estrofe, uma coisa meio Bocage, meio eu mesmo!

segunda-feira, 1 de abril de 2013

ABRIL É O MAIS CRUEL DOS MESES



Há muitas coisas impossíveis. Uma delas é entrar em abril sem que eu me lembre dos versos iniciais de A TERRA DESOLADA de T. S. Eliot. 

Na tradução de Ivan Junqueira 

Abril é o mais cruel dos meses, germina
Lilases da terra morta, mistura
Memória e desejo, aviva
Agônicas raízes com a chuva da primavera.
O inverno nos agasalhava, envolvendo
A terra em neve deslembrada, nutrindo
Com secos tubérculos o que ainda restava de vida.
O verão; nos surpreendeu, caindo do Starnbergersee
Com um aguaceiro. Paramos junto aos pórticos
E ao sol caminhamos pelas aléias de Hofgarten,
Tomamos café, e por uma hora conversamos.



Por ser um dos poemas mais famosos do mundo (na já distante virada para o terceiro milênio esse poema foi eleito o poema mais importante do século XX) imagino que leitores contumazes de poesia o conheçam então vou aproveitar a postagem para acrescentar uma parte dos QUATRO QUARTETOS, também de Eliot, um dos meus favoritos.


O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro,
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo o tempo é eternamente presente
Todo o tempo é irredimível.
O que podia ter sido é uma abstracção
Permanecendo possibilidade perpétua
Apenas num mundo de especulação.
O que podia ter sido e o que foi
Tendem para um só fim, que é sempre presente.
Ecoam passos na memória
Ao longo do corredor que não seguimos
Em direcção à porta que nunca abrimos
Para o roseiral. As minhas palavres ecoam
Assim, no teu espirito.
                      

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

PHILIP ROTH SAI DE CENA



Há uns dois meses Philip Roth deu uma entrevista afirmando que não escreverá mais. Às vésperas de completar 80 anos, o autor de "O Animal Agonizante", "O Complexo de Portnoy", "A Marca Humana", "O Fantasma Sai de Cena", "Patrimônio", "Complô contra a América" dentre  outros considera que sua obra literária está terminada. Seu último romance foi mesmo Nêmesis. Eterno candidato ao Nobel de literatura, Roth merece ser lido por muitos motivos mas principalmente pela contundência com que constrói e destrói sem perdão seus personagens.

Destaco o trecho a seguir, do romance "Pastoral Americana",  publicado em 1997, considerado uma ferrenha crítica à América hipócrita e narcisista.



Combatemos nossa superficialidade, nossa falta de profundidade, de modo a tentarmos nos aproximar dos outros livres de expectativas irreais, sem uma sobrecarga de preconceitos, esperanças, arrogâncias, da fora menos parecida com o avanço de um tanque, sem canhão, sem metralhadoras e sem chapas de aço de quinze centímetros de espessura; a gente se aproxima das pessoas da forma menos ameaçadora, de pés descalços, em vez de vir rasgando o capim com as esteiras do trator, recebe o que elas dizem com a mente aberta, como iguais, de homem para homem, dizíamos antigamente, e mesmo assim a gente sempre acaba entendendo mal as pessoas. A gente também pode possuir o cérebro de um tanque. Já estamos entendendo errado as pessoas antes mesmo de encontrá-las, enquanto ainda estamos prevendo o que vai acontecer; entendemos errado enquanto estamos diante delas; e depois vamos para casa e contamos a alguém sobre o encontro, e de novo entendemos tudo errado. Uma vez que a mesma coisa acontece com os outros em relação a nós, tudo vira uma ilusão desnorteante, destituída de qualquer percepção, uma espantosa farsa de incompreensões. E com tudo isso, o que é que vamos fazer a respeito dessa questão profundamente significativa que são as outras pessoas, que se vêem drenadas de toda a significação que julgamos ser a delas e adquirem, em vez disso, um significado burlesco, o que vamos fazer se estamos tão mal equipados para distinguir os movimentos interiores e os propósitos invisíveis uns dos outros? Será que todo mundo devia trancar a porta de casa e ficar quieto, isolado, como fazem os escritores solitários, em uma cela a prova de som. invocando as pessoas por meio de palavras e depois sugerindo que essas pessoas feitas de palavras estão mais próximas das coisas reais do que as pessoas reais que deturpamos todos os dias com a nossa ignorância? Persiste o fato de que entender direito as pessoas não é uma coisa própria da vida, nem um pouco, Viver é entender as pessoas errado, entendê-las errado, errado e errado, para depois reconsiderando tudo cuidadosamente, entender mais uma vez as pessoas errado. É assim que sabemos que estamos vivos: estando errados. Talvez a melhor coisa fosse esquecer se estamos certos ou errados a respeito das pessoas e simplesmente ir vivendo do jeito que der. Mas se você é capaz de fazer isso... bem, boa sorte.


OBRIGADO POR TUDO, PHILIP!


quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

A HISTÓRIA DO AMOR


Um romance repleto, complexo, completo. Assim é  "A História do Amor" da escritora americana Nicole Krauss. O li em 2006, logo após ser lançado e nunca pude esquecê-lo. Com uma  destreza ímpar e muita sensibilidade, Nicole entrelaça vidas aparentemente distantes no tempo e no espaço.
Um livro que a medida que fui chegando ao fim comecei inconscientemente a frear a leitura  para não "perder o contato" com aqueles personagens.

Uma amostra da beleza da prosa da moça (quando ela lançou o livro tinha apenas 31 anos):


De cor não é uma expressão que uso com desprendimento.
Meu coração é fraco e indigno de confiança. Minha partida será por causa do meu coração. Procuro sobrecarregá-lo o mínimo possível. Se alguma coisa vai representar um impacto, eu a desvio para outro lugar. Para o meu intestino, por exemplo, ou para os meus pulmões, que podem se deter por um instante mas nunca deixaram de dar mais uma respirada. Quando passo por um espelho e me surpreendo num relance, ou se estou no ponto de ônibus e alguns garotos surgem atrás de mim e dizem: Quem está com cheiro de merda?, essas pequenas humilhações cotidianas eu, de modo geral, assimilo no fígado. Outros estragos absorvo em outros lugares. O pâncreas eu guardo para ser atingido por tudo o que foi perdido. É verdade que são muitas coisas, e o órgão é muito pequeno. Porém. Você se surpreenderia de saber quanto ele é capaz de suportar, tudo o que sinto é uma dor aguda, momentânea, e depois acaba. Às vezes imagino minha própria autópsia. Desapontamento comigo mesmo: rim direito. Desapontamento dos outros comigo: rim esquerdo. Fracassos pessoais: kishkes. Não quero dar a impressão de que fiz disso uma ciência. Não é tão bem pensado. Assimilo a coisa onde ela aparece. Acontece que percebo certos padrões. O anoitecer, antes que eu esteja pronto, porque os relógios foram atrasados, sinto, por razões que não consigo explicar, nos meus pulsos. E, quando acordo e os dedos estão enrijecidos, eu quase certamente sonhava com a infância. O terreno onde costumávamos brincar, o terreno onde tudo se descobriu e onde tudo era possível. (Nós corríamos tanto que achávamos que íamos cuspir sangue: para mim, esse é o som da infância, respiração difícil e sapatos esmagando a terra dura.) Rigidez nos dedos é o sonho da infância como ele voltou no final da minha vida. Tenho de corrê-los sob água quente, com vapor embaçando o espelho, lá fora o arrulho de pombos. Ontem vi um homem chutando um cachorro, e a sensação se alojou atrás dos meus olhos. Não sei que nome dar a ele, ao lugar antes das lágrimas. A dor de esquecer: na espinha. A dor de lembrar: na espinha. Todas as vezes em que de repente eu me dava conta de que meus pais estavam mortos, e, ainda hoje, me surpreende que eu exista no mundo se os que me fizeram deixaram de existir: meus joelhos requerem meio tubo de Ben-Gay e uma grande produção só para se dobrarem. Para tudo, o seu tempo, para cada vez que acordei e cometi o erro de acreditar por um instante que alguém dormia a meu lado: uma hemorróida. Solidão: não há órgão que possa suportá-la inteira.


 Nicole Krauss na época do lançamento do livro


quinta-feira, 8 de novembro de 2012

CRIATURAS DEL AIRE



Criaturas de Aire é um livro composto por 32 monólogos "escritos" por algum personagem histórico ou de ficção. Drácula, Mister Hyde, Sherlock Homes, o apóstolo João, Bakunin,..., cada um deles tem sua alma, sua essência, exposta pelo escritor, filósofo e professor catedrático de Ética na Universidade do País Basco, Fernando Savater.
Desde que o adquiri em 1990, numa da inúmeras livrarias da Calle Callao, em Bs.As., é um dos meus livros de cabeceira. 
Um dos trechos que mais gosto é o monólogo de Peter Pan. De maneira surpreendente, Savater extrai aquilo que está apenas nas entrelinhas da obra de J. M. Barrie.


 Fala PETER PAN 



Eu vou te ensinar a voar,  menina Wendy. Venha, feche os olhos, estenda os braços, respire muito fundo pelo nariz, salte ao norte, busque tua estrela ... Venha. Serei teu irmão, teu anti-pai, vamos juntos como balões vagando, como meteoritos ascendentes e preguiçosos, com o vento de cima despenteando-nos carinhosamente como se fosse a mão bruta mas tenra do herói,  que de seu cavalo, coloca sobre a cabeça da criança que o admira quando ele passa.
Subiremos, Wendy: não há nada como voar! E riremos, riremos, porque o riso é o combustível do nosso vôo, a propulsão que vence a gravidade do impossível. Para voar, há que se deixar de ser sério e rir ... Quer saber para onde iremos? Você já  imagina, mas como você gosta de ouvir novamente vou repetí-lo: Terra do Nunca. Para chegar lá, não há necessidade de viajar muito, apesar que a distância que nos separa é intransponível para maioria. Para chegar à Terra do Nunca não há que mudar para lá, mas transformar-se, e isso é algo que não resolvem as agências de viagens. Ou melhor, não transformar-se, resistir à vertigem de mudança que nos leva à velhice, morte e respeitabilidade responsável. Temos que nos tornar imutáveis, Wendy, devemos nos tornar permanente imutáveis. Para sermos eternos temos que ser como crianças.
Pode-se ser como uma criança sem ser uma criança? Esse é o único problema real. Porque, considerando todas as coisas, a criança é a negação mais flagrante da imutabilidade e do permanente.  Perto de suas constantes mudanças dia a dia, minuto a minuto, a petrificação estável e conservadora de um velho é um monumento de granito. Quanto mais crescemos, menos mudamos é o que me disseram (você pode imaginar como é difícil para mim, falar essas coisas, eu não sei crescer). Nos primeiros cinco anos de nossas vidas sofremos transformações infinitamente mais importantes, quantitativa e qualitativamente do que nos setenta ou noventa seguintes. Ser uma criança imutável é um círculo quadrado: o auge é mais rápido do que a decadência, ou melhor, o auge é a forma mais rápida da decadência e a decadência é um auge que está começando a frear.
Oh, Wendy, eu só queria te ensinar a voar, falar de piratas, da Terra do Nunca,  de índios e animais selvagens, e aqui estou a dar-lhe uma lição metafísica sobre o problema do tempo! Mas não caia, minha menina: subamos, subamos,... Deixe-me falar sobre o Capitão Gancho, mesmo que seja apenas para amenizar nossa viagem à Terra do Nunca. O Gancho, que é um bom pirata, quero dizer,  é muito mau, um traidor, presunçoso, prepotente, fanfarrão e invejoso. Ao Gancho eternamente lhe persegue um crocodilo: Aquele bicho que comeu certa vez o seu braço esquerdo, com o relógio e tudo, e gostou tanto que só pensa em comer o resto. Mas o relógio tiquetaqueando adverte ao Gancho que seu inimigo se aproxima:  vive fugindo, o coitado, desse relógio que pretende devorá-lo e que, mais cedo ou mais tarde, conseguirá. Para mim é a mesma coisa, você não vê? Gancho e eu somos irmãos de crocodilo, ou, se você preferir, nós choramos as mesmas lágrimas cocodrilescas quando ouvimos o som de um relógio - o dia em que acordarmos, o dia em que o crocodilo nos alcançar- vamos nos tornar irmãos, Gancho e eu, irmãos de crocodilo e da Terra do Nunca, irmãos da princesa índia raptada, irmãos de ócio e aventura, irmãos improdutivos, audazes, inconstantes, supérfluos,... Ninguém entende o Capitão Gancho como eu. E ninguém me entende como ele: por isso somos inimigos mortais, pois o ódio é também uma forma de parentesco, não menos nobre, acredito. Você me pergunta qual o crocodilo que leva o ameaçador relógio do meu tempo em sua barriga? Por favor, Wendy , há muito que não falo de outra coisa: você é o crocodilo que segue meus passos pelos caribes da Terra do Nunca, você é o cronômetro que envenena a eternidade improvável a qual reclamo. Você é aliada daquilo que vai  me banir à maturidade ... Minha doce; ansiosa e anseio; minha fugaz, Wendy!

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

OS MELHORES DA PLAYBOY


Pode parecer piada para a garotada de hoje em dia mas no tempo em que eu era criança/adolescente era comum os adultos (homens, é claro) dizerem que compravam a revista Playboy para ler as entrevistas. As pessoas davam um risinho, mas não podiam contradizê-los, afinal, era senso comum que aquelas entrevistas eram boazudas mesmo. 
Mas eu não comprava por isso. Além de atender à solicitação de meus hormônios a revista trazia algo muito melhor do que as tais entrevistas. Os contos. De autores razoavelmente consagrados,  outros que se consagrariam depois ou "apenas" de bons escritores, não havia um número em que aqueles relatos não me surpreendessem. Histórias de mistério, suspense, drama. Recheadas de  disputas, mortes, redenções. Fascinava-me a capacidade de, em algumas páginas, personagens exibirem tanta verossimilhança (bem, naquele tempo eu não conhecia essa palavra, mas o sentido sim).
Agora, olhando para aqueles dias, confesso que os tais contos me parecem melhores ainda. Afinal, a concorrência que havia, duas páginas antes ou duas páginas depois era realmente de arrasar.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

O REMORSO




Em 1976, Jorge Luis Borges (1899-1986),  já quase um octagenário lança o livro A Moeda De Ferro. O livro traz o poema O remorso (El remordimiento, no original).  Um poema que é uma declaração de sua infelicidade. Imediatamente aclamado pela crítica, nele vemos um Borges diferente daquele não baixava a guarda, aquele que certa vez disse "A cegueira é clausura, mas também libertação, solidão propícia ao  ato criador, uma chave, uma álgebra". 
El Remordimiento é um  acerto de contas com o passado, com a solidão, com a vida.

El remordimiento

He cometido el peor de los pecados 
Que un hombre puede cometer. No he sido 
Feliz. Que los glaciares del olvido 
Me arrastren y me pierdan, despiadados. 
Mis padres me engendraron para el juego 
Arriesgado y hermoso de la vida, 
Para la tierra, el agua, el aire, el fuego. 
Los defraudé. No fui feliz. Cumplida 
No fue su joven voluntad. Mi mente 
Se aplicó a las simétricas porfías 
Del arte, que entreteje naderías. 
Me legaron valor. No fui valiente. 
No me abandona. Siempre está a mi lado 
La sombra de haber sido un desdichado.





As três traduções que selecionei fazem interessantes escolhas. Todas bem distintas. Aqui Antônio Cícero justifica maravilhosamente o porquê de naderias ao invés da fácil ninharias. Coisa de quem sabe o que diz e pensa o que escreve.




O remorso

Cometi o pior desses pecados 
Que podem cometer-se. Não fui sendo 
Feliz. Que os glaciares do esquecimento 
Me arrastem e me percam, despiedados. 
Plos meus pais fui gerado para o jogo 
Arriscado e tão belo que é a vida, 
Para a terra e a água, o ar, o fogo. 
Defraudei-os. Não fui feliz. Cumprida 
Não foi sua vontade. A minha mente 
Aplicou-se às simétricas porfias 
Da arte, que entretece ninharias. 
Valentia eu herdei. Não fui valente. 
Não me abandona. Está sempre ao meu lado 
A sombra de ter sido um desgraçado. 

(tradução: Fernando Pinto do Amaral)





O remorso

Cometi o mais fatídico pecado
que um homem pode cometer. Não fui
feliz. Que o gelo que do olvido flui
me arraste e perca, desapiedado. 

Meus pais forjaram-me foi para o jogo
incerto, mas esplêndido, da vida
e para a terra, o ar, a água e o fogo.
Fraudei-os. Não fui feliz. Descumprida

ficou-lhes a vontade adolescente.
Ative-me às simétricas porfias
das artes, que entretecem ninharias.

Legaram-me valor. Não fui valente.
Não me abandona – sempre está a meu lado 
– a sombra de ter sido um desgraçado.

(tradução: Gil Pinheiro)


O remorso

Cometi o pior dos pecados
Que um homem pode cometer. Não fui
Feliz. Que os glaciares do esquecimento
Me arrastem e me percam, desapiedados.
Meus pais me engendraram para o jogo
Arriscado e formoso da vida,
Para a terra, a água, o ar, o fogo.
Defraudei-os. Não fui feliz. Cumprida
Não foi sua jovem vontade. Minha mente
Se aplicou às simétricas porfias 
Da arte, que entretece naderias. 
Legaram-me coragem. Não fui valente.
Não me abandona. Sempre está a meu lado
A sombra de ter sido um desgraçado.

(tradução: Antônio Cícero)






A POESIA DE CHICO ARARIPE



Chico Araripe é poeta, músico, contador de histórias e de História. Além de frasista genial.
Sua poesia trata de temas que me são caros: amores arrebatadores, nossas existência e resistências. Não bastasse isso há também cadência, talento de quem conhece (e mais do que tudo, sente) os segredos do rítmo.

Confesso que invejo respeitosamente os quatro últimos versos do seu poema FANTASIA, a seguir.


Vi bater em teu rosto
uma brisa quente que soprava. Do inferno?
Em teus cabelos ao vento,
as pontas amareladas,
imitavam chamas que carbonizavam meu coração.
E tu ria.
E não emprestava uma gota do suor
que de tua cara caía
para apagar a dita chama
que em meu peito ardia.
Negra vadia! Amaste me tão profissionalmente
que parecia a funcionária, que fria,
carimbou o cheque devolvido que pagou
a minha fantasia.

domingo, 7 de outubro de 2012

FATOS E FOTO

A poesia de BORGES só melhorou nesses dez anos. Já a minha carcaça....


Mas afinal de contas é isso mesmo que esperamos. Das palavras e da carne.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

AS PERIPÉCIAS DA ÁGUA



Já que na postagem anterior falei sobre Cortázar não posso deixar de mencionar esse livro, lançado no final de 2010 de sobras,  inéditos (ou quase) e textos que o autor não considerava bons o suficiente para publicação(!!!!).

Será possível que um quarteto tão perfeito como esse a seguir não passou pelo seu crivo?

O que eu gosto do teu corpo é o sexo.
O que eu gosto do teu sexo é a boca.
O que eu gosto da tua boca é a língua.
O que eu gosto da tua língua é a palavra.


Porém, o melhor que o livro traz é um conto-poema (publicado uma única vez por um jornal mexicano em 1981) sobre o desejo da água de ser neve(como eu não pensei nisso antes?).


Peripécias da Água

"Basta conhecê-la um pouquinho para entender que a água está cansada de ser líquido. Prova disso é que na primeira oportunidade se transforma em gelo ou vapor, o que tampouco a satisfaz; o vapor se perde em absurdas divagações e o gelo é tosco e desajeitado, fica quieto onde pode e de modo geral só serve para dar vivacidade aos pinguins e aos gin and tonic. Por isso a água delicadamente escolhe a neve, que anima a sua mais secreta esperança, a de fixar para si mesma as formas de tudo o que não é água, as casas, os prados, as montanhas, as árvores.
Acho que deveríamos ajudar a neve em sua reiterada mas efêmera batalha, e que para isso seria necessário escolher uma árvore nevada, um esqueleto negro sobre cujos incontáveis braços vem se estabelecer a branca réplica perfeita. Não é fácil, mas se ao prever a nevada serrássemos o tronco de forma que a árvore se mantivesse em pé sem saber que já está morta, como o mandarim memoravelmente decapitado por um verdugo sutil, bastaria esperar que a neve repetisse a árvore em todos os seus detalhes e então retirá-la para um lado sem a menor sacudida, num leve e perfeito deslocamento.
Não creio que a gravidade desmanchasse o alvo castelo de cartas, tudo aconteceria como numa suspensão do vulgar e do rotineiro; em um tempo indefinível, uma árvore de neve sustentaria o sonho realizado da água. Talvez fosse destruída por um pássaro, ou o primeiro sol da manhã a empurraria para o nada com um dedo morno. São experiências que deveríamos tentar para que a água fique contente e volte a encher as jarras e copos com a alegria borbulhante que por ora reserva para as crianças e os pardais."



Cortázar, mesmo morto há quase 30 anos, ainda escreve melhor do que muita gente por aí.

CORTÁZAR E O BEIJO



Julio Cortázar é um dos mais importantes escritores argentinos, quiçá do mundo inteiro.
Rayuela (O jogo da amarelinha, em português) é considerado sua obra prima. O livro, de 1963 pode ser lido de duas maneiras: de forma linear do capítulo 1 ao 56. Assim a história tem um começo, meio e fim. Ou então começando no capítulo 73 e seguindo a ordem sugerida pelo autor (no total são 155 capítulos razoavelmente curtos), daí o nome do romance. Hipertexto dos bons, quando essa palavra ainda nem existia. Essa leitura traz um outro livro: misterioso, desafiador, denso, complexo.

A obra carrega diversos tipos de interpretações, já foi dissecada por estudiosos e virou teses de doutorado pelo mundo afora.




Certa vez ele disse: “O romance não tem leis, a não ser a de impedir que a lei da gravidade entre em ação e o livro caia das mãos do leitor.” Com Cortázar esse risco é inexistente. Pelo contrário, o perigo é perder o sono com as imagens que  são apresentadas, com a construção das frases, com a escolha das palavras.


Como não se impactar com a mais completa e arrebatadora, descrição de um beijo, que compõe o capítulo 7? 


"Toco a sua boca com um dedo, toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se, pela primeira vez, a sua boca entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que minha mão escolheu e desenha no seu rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade, eleita por mim para desenhá-la com minha mão em seu rosto, e que, por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que minha mão desenha em você. Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de ciclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõe-se, e os ciclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem, com um perfume antigo e um grande silêncio. Então as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se estivéssemos com a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água."


Nem sei se é o meu favorito porque há tantos maravilhosos! Em particular sou fã do primeiro parágrafo do capítulo 73:
"Sim, mas quem nos curará do fogo surdo, do fogo sem cor que corre, ao anoitecer, pela rue de la Huchette, saindo dos portais carcomidos, dos pequenos vestíbulos, do fogo sem imagem que lambe as pedras e ataca os vãos das portas, como faremos para nos lavar da sua queimadura doce que persiste, que insiste em durar, aliada ao tempo e à recordação, às substâncias pegajosas que nos retêm deste lado, e que nos queimará docemente até nos calcinar? Então é melhor compactuar com os gatos e os musgos, travar amizade imediata com as porteiras de vozes roucas, com as criaturas pálidas e sofredoras que aparecem às janelas, brincando com um ramo seco. Ardendo assim, sem tréguas, suportando a queimadura central que avança como o amadurecimento paulatino do fruto, ser o pulso de uma fogueira neste emaranhado de pedra interminável, caminhar pelas noites da nossa vida com a obediência do sangue no seu cego circuito."



RECOMENDO FORTEMENTE A LEITURA.