domingo, 9 de setembro de 2012

VOCÊ ME ACHA TRISTE





 


Quem passou pela vida em branca nuvem,
E em plácido repouso adormeceu;            
Quem não sentiu o frio de desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu;
Foi espectro de homem; não foi homem,
Só passou pela vida, não viveu.
Francisco Otaviano (1825-1889)


Você me acha triste, diz
que meu olhar fita o infinito
Se pergunta, como estou?
Nunca digo: tudo bem,
mas que vou indo.

Que ando de cabeça baixa,
e raramente dou um sorriso.
Ontem me pegou chorando,
e não pode ver o motivo.

Tem medo que eu não te ame mais,
que nosso amor esteja esgotado
não sabe o que fazer,
me pede que eu reaja.

Admito que as dores do mundo
se hospedam no meu coração.
Mas isso não é tristeza minha,
infelicidade ou depressão.

É que sendo poeta,
sinto tudo o que há para sentir
cada infortúnio, desgraça,
remorso, o que há de ruim.

Mas tenho também os amores
os encantos, as alegrias,
e tudo sai em meus versos,
não só a melancolia.

Por isso, meu bem, entenda
e acredite no meu amor.
Meu destino é traduzir o mundo,
o prazer,
mas também a dor.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

NÃO CUMPRIU





1992

Ela, Águas de Março; eu, November Rain. Ela, samba de raiz; eu, rock progressivo. Ela, letras do Aldir; eu, do Peter Hammil. Ela, Drummond na cabeceira; eu, Rubem Fonseca. Ela, água sem gás; eu, vinho, cerveja, vodca, e sei lá mais o quê. Ela, alegria; eu, melancolia.
Mas funcionou. Desde o primeiro instante, na aula de teoria literária quando compartilhamos a cópia de um texto e acabamos encostamos as costas das mãos por acaso, um sorriso envergonhado de ambas as partes que revelou ao invés de esconder. Depois, durante o intervalo, dividindo um Egg-cheese-bacon-salada com banana no trailer lanchonete. No fim do dia, uma cerveja no Bar do Natal. Para o beijo foram mais três dias, mas nós já sabíamos. Funcionou daquele jeito tão adolescente, de querer ficar junto o tempo todo, troca de confidências, juras e temores. Conheci seus pais e ela os meus. Meu avô fez noventa anos e prometeu que não morreria sem que lhe déssemos um bisneto. Não cumpriu. Também não se cumpriram as promessas de nos amarmos para sempre e de não deixarmos nada nos separar. Não houve um motivo, ou talvez tenham sido uns cem. Concessões demais, vontades de menos, angustias isoladas, nada que possa ser medido para poder ser perdoado. Ela viu antes, tão prática; eu quis consertar. Ela disse não e foi embora; eu fiquei olhando para a porta. Em nossos planos eu escreveria um dicionário, ela um romance. O dicionário nunca saiu, mas o romance apareceu um ano e pouco depois: “Frialdade”. Na história, um casal vivendo isolado numa casa na serra vê seu casamento ruir a medida que o inverno mais rigoroso do século avança sobre a montanha. Num trecho, a esposa despreza o hábito do marido em querer que ela ouça seus discos, leia seus romances favoritos: “-Você não percebe como é ridícula sua pretensão em me educar. Os romances de capa e espada que você devora são puro lixo e seus discos de rock progressivo italiano são chatos e repetitivos. Como você.”
Não consegui acreditar quando li pela primeira vez. Uma das minhas fixações musicais naquela época era exatamente rock progressivo italiano. Nem para disfarçar e mudar para bolero ou twist. Eu teria captado a mensagem do mesmo jeito. O livro termina na chegada da primavera. A casa é posta à venda, os dois se separam. Escrever um livro com o fim de deixar tudo para trás. Era o que eu deveria ter feito. A cada vicissitude, escrever um livro.
 Eu não disse que ela era prática?
Já se vão muitos anos.
Hoje, aproveito do circunstancial regulamento das cinco mulheres para cada homem. Mas por mais que eu tenha mudado meu modus operandi com relação às mulheres, isso ainda pulsa.
Logo que Carol foi embora, desmoronei. Não podia aceitar o fim. Fui até a casa dos pais dela, mas ela não estava lá. No trabalho, disseram que ela tinha pedido transferência, não sabiam para onde. Queria mais uma chance. Se pelo menos eu soubesse para onde mandar flores ? Passava meu tempo imaginando o instante em que ela abriria a porta do apartamento e se diria arrependida. Comecei a beber até tarde todos os dias, e a perder o horário do trabalho no dia seguinte. Chorava no meio da rua quando via uma demonstração  de carinho entre namorados. Seu pai apareceu um dia e pediu que eu a deixasse em paz. Depois, foi a vez da mãe. Se solidarizava com a minha dor, mas era melhor que a esquecesse. Chorou comigo e tudo.
Finalmente, como eu não cedia, pediram para Rick me contar que ela já estava namorando de novo, um velho amigo da família, mas que tudo acontecera depois da separação. Soquei o espelho do banheiro e levei doze pontos na mão.
Lentamente, por necessidade de retomar o trabalho e não por convicção, parei de procurá-la. A dor, no entanto, ainda era como uma febre intermitente. Rick aparecia lá em casa, duas ou três noites por semana para conversar, contava dos filmes que tinha assistido, falava de seus planos para expandir a fábrica, queria saber se eu tinha comprado algum disco novo. Eu escutava com estupor, o olhar fixo no vazio da televisão. Uma vez apareceu com duas amigas. A essa altura ele já estava casado, ostentava uma aliança que parecia ter com mais ouro do que as reservas de vários países, mas as moças não pareciam se importar. Bebemos vodka e propuseram irmos, todos, a uma boate. A morena gentilmente se ofereceu a ficar comigo quando eu disse que não queria ir. Acabei pedindo que todos fossem embora.
As noites demoravam a passar, eu não dormia, mas também não conseguia fazer nada. As fitas que pegava no vídeo clube se acumulavam sobre a televisão e eram devolvidas, com dias de atraso, intocadas.
Depois de algumas semanas, tive forças para eliminar do apartamento todos os rastros dela: fotos, bilhetes, cartas, as roupas que ela tinha me dado ou ajudado a escolher. Coloquei tudo numa caixa de papelão, levei ao arpoador e ateei fogo. Rick comemorou, propondo uma noitada com outras amiguinhas. Mas eu não estava pronto.
No fim do ano fiz uma viagem à Europa. Percorri o circuito dos queijos favoritos de Julio, tomei os melhores vinhos que o minhas economias de professor puderam comprar. Conheci queijarias famosas, visitei propriedades seculares, onde fabricar queijos era quase uma religião. Nos dias mais longos, viajando por estradas secundárias, seguindo mapas desatualizados, e querendo aproveitar o máximo de cada região, só mergulhava na tristeza quando retornava ao hotel.
Voltei melhor, já podia ver as coisas continuando sem Carol, mas ainda não me animava a recomeçar minha vida afetiva. Não queria nem ouvir falar naqueles encontros arranjados, tão artificiais. E tinha medo de me aventurar e enfrentar o ritual de conhecer alguém, compartilhar os gostos, ir ao cinema, jantar em lugares românticos, o primeiro beijo. Rick disse que quando aparecesse a pessoa certa, esse temor esvanesceria.
 Umas poucas noites depois dessa conversa, acordei sobressaltado. Completamente molhado de suor. Arrepiado da nuca ao cóccix, os pelos do braço eriçados. Com sono, demorei a perceber o que tinha acontecido: Eu tinha tido um sonho, o primeiro erótico sem Carol, desde a separação. Nele, eu estava cercado de prostitutas, algumas completamente nuas, outras vestidas com roupas colantes. Todas trocavam carinhos e se beijavam. Uma delas veio me chupar, mas antes gritou uma série de indecências, me xingou.
O short do pijama, além do suor, estava melado.
O coração disparado, a carótida latejava. Comecei a rir. Era o começo da cura pela via do anti-romance.
Tomei um banho gelado.
Era tarde, mas resolvi sair para comemorar. Onde? Num puteiro, é claro.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

PERFEIÇÃO, PERFEIÇÃO


Perfeição, perfeição  (Introdução)


Retorno aos meus enigmas
esses de todas as horas
a luta pelo pão
a vontade de ir embora.

Retorno aos meus enigmas
e descubro raivas antigas
invejas impublicáveis
da carne, da alma, da vida.

Retorno aos meus enigmas
e não aprendi a lição
comê-los com gana e fúria,
nunca com compaixão.

Retorno aos meus enigmas
mas os males persistem.
Pior do que não dormir à noite
é viver o dia após dia.


Perfeição, perfeição

Todos os vestígios
nesta minha máscara mortuária
fazem saber que fui o seduzido
e jamais o sedutor.
Me saciei com a facilidade
do consumo “fast”,
e não percebi
o quanto era digerido.
Domínio, nunca tive
algum inconformismo, talvez
(ainda que sem qualquer atitude reparadora).

Sobre mim, na carne projetados,
horizontes repletos de ausência.
Panfletando a doutrina de ser
menos amado que amante,
mais um vencido que vencedor,
encho a casa de gente.
Preciso demais dos ruídos e do lixo
que se produz no fim da festa,
e que dão certidão a esse lugar.
Esvazio as gavetas,
rasgo cartas, fotografias
apago uma a uma
as mensagens no computador,
os recados na secretária.

A pele está fria.           
Ela que já foi energia,
febre da tarde,
agoniza.
A voz rouca de insistir.
Mas os gritos não só foram inúteis,
como deflagraram o grande silêncio.
É numa espécie de precipício,
como aqueles dos sonhos maus
de quando éramos crianças,
que quase despenco.

O tragicômico é que nem ligo.
Fotografo com meus olhos de ladrão de paisagens
o mar da tarde.
No Leblon, tudo permanece imutável
inclusive eu,
farsante sem cúmplice,
exilado em minha própria agonia e cidade.
Cansado demais para perceber
que certas utopias renascem
onde, ontem mesmo,
foram dilaceradas.

No circuito dessa insônia
que já dura quarenta e cinco horas,
percorro as livrarias e as bancas chiques
mas tudo já foi lido ou não tem importância.

As dores nas ruas são maiores
do que as nossas.
Ao menos parecem.

Um homem grita um blá blá blá religioso.
Ele sabe o que faz
e não se importa com os olhares de desprezo
que lhe são lançados.
Quer mudar o mundo.
Tenho vontade de chamá-lo para um café.
Tenho vontade de chutar-lhe o traseiro.
Cumprida a missão de desejar-lhe mal,
me arrependo
mas é só.

O moderno é um labirinto
e o contemporâneo, o caos absoluto.
Digiro essas bobagens lidas
num catálogo de exposição de pintura
enquanto resolvo se vou de um “pf” num boteco
ou de sandwich no “Mc”.
Decido por uma cerveja já que tem jogo passando
nas tevês da loja de eletrodomésticos.

Uma nuvem opaca,
minha companheira frequente,
se dissipa lentamente.
Ou vai pousar sobre outra cabeça.
O lento tem habilidade e o veloz não sabe lançar.

Fecha-se outro ciclo.
Tudo parece longe demais para me incomodar.
O sono começa a querer.
As vendas que me cobrem os olhos
vão ficando transparentes
e o nós, mais frouxos, coroam a paciência.
Somos a cobra que morde o próprio rabo
e se equilibra.

Nenhum filho desta terra pensa em suicídio
depois de uma caminhada pela Lagoa
no domingo de manhã.
É que há uma coleção imensa de motivos:
O sol aconchegante, o ar fresco,
crianças correndo,
ciclistas passeando,
coco gelado, e quem sabe,
um pulo na praia mais tarde ?
Isso nos redime.
Saber gozar os dias
mesmo quando as noites foram ferinas.
Essa é a verdadeira libertação.

O homem de preto deixou todos os demais insatisfeitos.
Uma briga começa.
Compro outra cerveja e vou andando.
Está escrito na minha cara que desisti
das coisas certinhas,
emprego, benefícios,
férias remuneradas,
do despertador às dez para às seis?
Por onde andarão os companheiros de chorinho?
Quanta saudade!
Os discos novos escutados mil vezes
tentando tirar de ouvido.
Quando aparecia uma partitura, que festa.
Os finais de semana ensaiando no sítio,
as primeiras apresentações.
De repente tudo desandou.
O Evandro saiu do ar
e a gente foi desanimando
até parar.

As casas há muito demolidas
permanecem nas fotografias
e nos pensamentos.
Velhos jogam cartas e falam do passado.
Apareço e sou saudado como o neto pródigo.
Convido-os para uma pescaria
mas não se animam.
Vovô levanta as sobrancelhas agradecendo
e pedindo que eu desista.
São homens cansados.
Beijo a todos e cruzo a praça
pensando se a idéia que subverte a ordem
mais nos corrói ou nos alenta.

Famílias inteiras dormem debaixo do viaduto
e o ônibus passa rente, jogando fumaça.
Não mate a mosca que repousa na cabeça do tigre.
Observo a pressa nos olhos
dos que dirigem seus automóveis pela avenida.

Deixei penetrar na cabeça
o som dos pássaros
que ainda sobrevivem na cidade.
Em contrapartida,
puxei o plug do telefone e cortei minhas conexões.
Desfiz todos os elos com as perspectivas tecno-tec.

Ela nunca me deu
o perdão que nunca pedi.
E por isso nunca pudemos voltar a ter
uma conversa civilizada.

Por que acho que as mãos de Carmem
reencarnaram em Marisa ?

Quanta perfeição !
Quanta perfeição sobra nesse mundo !
O que falta é tempo para saber.

Fecho a nota de meus erros e acertos
conto, refaço, mas o saldo é sempre zero.
Mais do que esperei
mas menos do que qualquer um de nós
está pronto a admitir.

Será esse o objetivo do jogo ?

HÁ CERTAS COISAS QUE SÃO AUTO-EXPLICATIVAS



1996
  
Não é que ele não tenha tentado o suficiente. Apenas não conseguiu. Porque o ser humano não pode lutar o tempo todo contra  aquilo para o qual ele existe. E nossa existência não está condicionada à nossa vontade, mas sim ao nosso desejo, ainda que a maioria das pessoas confundam essas duas coisas.
Na minha convivência com putas vejo inúmeros casos de homens que oferecem e mesmo insistem até que conseguir tirá-las “da vida”. O procedimento é sempre parecido. Montam apartamento,  mandam vir os parentes dela, normalmente a mãe e o filho (se ela tiver, é claro, e quase sempre elas têm). A maioria deles não sossega enquanto não se casa. E para quê? Para depois ter ciúmes da própria sombra. Os mesmos caras que em outras circunstâncias fariam de tudo até desviar alguma mocinha de família ou alguma mulher casada. São esses caras que têm fantasias eróticas com freiras! Alcançar a virtude e corrompê-la é um afrodisíaco maravilhoso. Eu mesmo já provei desse néctar, mas isso não vem ao caso.
Rick tentou ser fiel. E quanto mais ele tentava mais elas se exibiam, se declaravam, se ofereciam. Ele conhecia os truques e se desvencilhava deles com facilidade. Mas por baixo daquela calça havia um membro acostumado à satisfação sem limites e que estava submetido a uma rigorosa dieta monogâmica. Suas partes altas e partes baixas estavam em conflito. E isso o debilitou animicamente. Perdeu a vontade de sair à noite e de viajar nos fins de semana. O sexo com Rebeca, ao invés de melhorar, como era de se esperar, piorou. Mas mesmo assim ele tentou. Até que num início de noite, quando estava quase saindo do escritório, alguém tocou a campainha. Todos os funcionários já tinham saído então ele mesmo foi abrir a porta. Era Inês, uma das melhores amigas de Rebeca desde a faculdade e sócia de sua esposa no consultório.
“Pensei que a sua secretária não iria embora nunca.”
Ele sequer perguntou o que ela estava fazendo ali porque há certas coisas que são auto-explicativas. Já se conheciam há alguns anos e sempre que ficavam a sós, ela deixava claro que um dia eles teriam um caso. Antes que ele pudesse articular uma saída (e ele não estava certo de querer sair), Inês trancou a porta e tirou toda a roupa. Seus atributos eram bem convincentes Mas ao invés de se atirar sobre Rick, dando-lhe a chance de fazer a próxima jogada,  Inês usou uma tática inesperada e covarde. Começou a se tocar, a falar indecências, a aproximar sua mão úmida do nariz dele para que ele pudesse sentir o perfume do seu sexo. Se apresentou em ângulos que a vulgarizavam mas também a potencializavam. Cuspiu na suas mãos e esfregou a saliva nos seios e no rosto. Abriu as nádegas com as mãos, mostrando-lhe o rabo. E ele ali, encostado na sua escrivaninha, pouco a pouco sendo dominado pelos sentidos. Até que mandou seu estoicismo pro inferno, e puxou-a pelo cabelo em sua direção. O que se seguiu é óbvio: sexo no chão, no sofá e na mesa da sala de reuniões. Inês gritando palavrões e Rick voltando à sua realidade.
Assim terminou seu ascético celibato. Mas que ele tentou, tentou.

·······

DESOLAÇÃO (poema pré-eleitoral)




Por essas ruas, nas noites
há fantasmas caminhando
que não podemos enxergar
mas que choram,
que berram,
berram.

E há abrutes que riem,
querem mais, querem mais,
pirotecnias públicas e privadas
onde possam defecar.

Sob o luar onde ontem
no carro, na rua de trás,
fizeram aquilo que hoje,
não fazemos nem nos lençóis.

Vejo almas pequeninas
e grandes defeitos de origem
entre as luzes azedas dos postes
e os bueiros do metrô.

DO LIVRO DOS SUICIDAS




Cerro os olhos,
penso  bobagens
mas nasce o dia
e então desisto.

Solano Tiguar (España 1856/1900)


Quando me dá aquela falta de confiança, uma fraqueza nas pernas, o corpo todo mole, uma arrepiação, quando me falta ar, a noite chega, quando a vida se esvai em abortos inúteis porque na mesma hora há outros sendo inventados que nem sabem, e nunca saberão. Quando tudo é demais, tudo é agouro, tudo é pouco, e ao mesmo tempo é tanto. Minha cara no espelho, ah! maldito seja esse espelho e essa imagem de homem fragmentado, repartido entre o passado de pouca sombra e um futuro que nunca firma. Que dor é essa que me dá quando menos espero, aos domingos, nas tardes ensolaradas, ou quando toca o telefone? 

domingo, 2 de setembro de 2012

REVIRAVOLTA



Foste o beijo melhor da minha vida
Ou talvez o pior... Glória e tormento
Contigo à luz subi do firmamento,
Contigo fui pela infernal descida !

Olavo Bilac

Giro, reviro e na volta
ainda me encontro perdido
carrego insustentáveis culpas
aguardo um inominável castigo.

Se na hora tivesse escutado
recolhido meus cacos, partido
pouparia dor a muitos
e menos a mim ferido.

Mas a razão não comanda
e a vontade de ser querido
cegou meu coração, já que os olhos
beleza maior nunca haviam visto.

E quando souberam, gritaram
condenaram um já vencido
cansado pela inevitável perda
e o pior nem havia sido.

Foi quando tu me renegastes
fizestes pouco do meu amor aflito
e em tua defesa, o entregastes
diretamente ao olvido.

E eu que até agora era forte
forjado naquilo que nos havia unido
aprendi mesmo sem entender
o que é desviver por desvario.