quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

IN MY BOX

Simplesmente adoro bandas/artistas que lançaram apenas um disco. Sei lá, sinto que toda uma gama de fatores confluíram para que aquela obra fosse a síntese daquela inspiração/união. 
Os exemplos são muitos (entre o ABSURDO e o INFINITO) mas os mais significativos para mim são as/os bandas/artistas ARMAGEDDON (Armageddon, Inglaterra, 1975), JEFF BUCKLEY (Grace, Estados Unidos, 1994) e FAIRFIELD PARLOUR (From Home To Home, 1970). 

Ainda que os dois primeiros mereçam e terão posts dedicados à eles aqui, hoje vou falar sobre essa obra única e maravilhosa que é o álbum do Fairfield Parlour. "Única" nem é uma expressão exata porque os mesmos caras haviam lançado quatro álbuns com o nome de Kaleidoscope (não confundir com a banda americana de mesmo nome). Entretanto, esse disco tem uma natureza tão própria que acaba diferindo da obra anterior deles. 
Ao trocarem de nome tudo mudou!
Com uma sonoridade que remete intencionalmente (e declaradamente) aos Beatles, a banda liderada por Eddy Pumer e Peter Daltrey (autores de todas as canções, ok, eu sei que você pensou em Lennon e MacCartney) fizeram um misto de folk e classic rock da mais alta qualidade. Sempre que os ouço (e é sempre) lembro (além dos The Fab Four) do Pretty Things ou mesmo de uma das (melhores fases) do Fairport Convention.
"From Home To Home" traz algumas maravilhas como "Aries", "Soldier Of The Flesh" (link a seguir) e "Emily".


Além dessas, destaco (E MUITO!) a curtinha (tem exatos dois minutos), intensa e apenas aparentemente inocente "'In My Box":


In my box have lots of things
Like bicycles and bells and things,
And an old oak tree and you!
In my box have lots of things
Like buses, trams and trains and things
And a bust of King George and you!
In my...
In my box I get lost all the time
In box I get lost, but who cares?
Just pour the wine!
In my box have lots of things
Like mountains, ships and peas and things
And a Sunday School and you
In my...
In my box I get lost all the time
In box I get lost, but who cares?
Just pour the wine!
In my box I have lots of things
A broken heart and plate and dreams
And a photograph of me!
In my...
In my box I get lost all the time
In box I get lost, but who cares?
Just pour the wine!

(Nem precisa do google translation. Para entender de verdade talvez precise de outra coisa).

Esse álbum surpreende sempre quem o escuta pela primeira vez. A minha edição é de 2004, da (dedicada editora alemã) Repertorie, e traz OITO faixas bônus! 

Amo esse álbum do começo ao fim!

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

PHILIP ROTH SAI DE CENA



Há uns dois meses Philip Roth deu uma entrevista afirmando que não escreverá mais. Às vésperas de completar 80 anos, o autor de "O Animal Agonizante", "O Complexo de Portnoy", "A Marca Humana", "O Fantasma Sai de Cena", "Patrimônio", "Complô contra a América" dentre  outros considera que sua obra literária está terminada. Seu último romance foi mesmo Nêmesis. Eterno candidato ao Nobel de literatura, Roth merece ser lido por muitos motivos mas principalmente pela contundência com que constrói e destrói sem perdão seus personagens.

Destaco o trecho a seguir, do romance "Pastoral Americana",  publicado em 1997, considerado uma ferrenha crítica à América hipócrita e narcisista.



Combatemos nossa superficialidade, nossa falta de profundidade, de modo a tentarmos nos aproximar dos outros livres de expectativas irreais, sem uma sobrecarga de preconceitos, esperanças, arrogâncias, da fora menos parecida com o avanço de um tanque, sem canhão, sem metralhadoras e sem chapas de aço de quinze centímetros de espessura; a gente se aproxima das pessoas da forma menos ameaçadora, de pés descalços, em vez de vir rasgando o capim com as esteiras do trator, recebe o que elas dizem com a mente aberta, como iguais, de homem para homem, dizíamos antigamente, e mesmo assim a gente sempre acaba entendendo mal as pessoas. A gente também pode possuir o cérebro de um tanque. Já estamos entendendo errado as pessoas antes mesmo de encontrá-las, enquanto ainda estamos prevendo o que vai acontecer; entendemos errado enquanto estamos diante delas; e depois vamos para casa e contamos a alguém sobre o encontro, e de novo entendemos tudo errado. Uma vez que a mesma coisa acontece com os outros em relação a nós, tudo vira uma ilusão desnorteante, destituída de qualquer percepção, uma espantosa farsa de incompreensões. E com tudo isso, o que é que vamos fazer a respeito dessa questão profundamente significativa que são as outras pessoas, que se vêem drenadas de toda a significação que julgamos ser a delas e adquirem, em vez disso, um significado burlesco, o que vamos fazer se estamos tão mal equipados para distinguir os movimentos interiores e os propósitos invisíveis uns dos outros? Será que todo mundo devia trancar a porta de casa e ficar quieto, isolado, como fazem os escritores solitários, em uma cela a prova de som. invocando as pessoas por meio de palavras e depois sugerindo que essas pessoas feitas de palavras estão mais próximas das coisas reais do que as pessoas reais que deturpamos todos os dias com a nossa ignorância? Persiste o fato de que entender direito as pessoas não é uma coisa própria da vida, nem um pouco, Viver é entender as pessoas errado, entendê-las errado, errado e errado, para depois reconsiderando tudo cuidadosamente, entender mais uma vez as pessoas errado. É assim que sabemos que estamos vivos: estando errados. Talvez a melhor coisa fosse esquecer se estamos certos ou errados a respeito das pessoas e simplesmente ir vivendo do jeito que der. Mas se você é capaz de fazer isso... bem, boa sorte.


OBRIGADO POR TUDO, PHILIP!


segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

É PIU DIFFICILE ASPETTARE IN SILENZIO RUMOROSO DEL MARE.



    Contemplou a cidade do último degrau da escada que o levaria ao navio. O alaranjado daquela tarde pareceu-lhe brasa viva. O fluxo dos carros, com faróis recém acesos, era como lava espalhando-se lentamente. Mas era seu coração que ardia.
    Quando, oito meses antes, seus pais o convidaram para fazer esse cruzeiro ele não titubiou em aceitar. Os velhos eram boa companhia para alguém sossegado como ele. Dez dias pela costa do Rio, Espírito Santo e Bahia. E com mordomia! Quem não quer? Mas agora tudo mudara. Conhecera uma garota, dias antes na casa de um amigo, e não conseguia pensar em mais nada. Conversaram por horas, beberam juntos. Ela era legal, gostava de gatos, estudava letras. E era linda! Ela convidou-o para que passassem o reveillon juntos, na casa de uns tios, em Copacabana. Na hora dos fogos iriam à praia. Logo ele, que abominava multidões!
    Aos vinte e dois anos ainda não tinha tido uma namorada de verdade, morava com seus pais na mesma casa em que crescera. E trabalhava com seu pai na pequena corretora de seguros que herdaria algum dia. A verdade é que somente agora ele se preocupava em ser (ou não ser) aquele que seus amigos chamavam de "o velho". Nunca se importara de fato com o apelido que recebera por gostar apenas de filmes dos anos 60 e 70 (a melhor fase do cinema, dizia), de rock progressivo (música de uma galera que está com quase cinquenta ou mais. Mas quem liga?) e de clássicos da literatura do século XIX ou início do século XX. Enfim, o apelido não era tão inadequado. 
    No momento em que os demais passageiros (incluindo papai e mamãe) aglomeravam-se no convés esperando que a nave zarpasse ele escutava seu ipod na cabine da família. 
   De repente, uma música deu o sentido que ele tanto precisava.
   Quando seus pais chegaram ele já estava em terra firme.
   Um bilhete, com uma única frase, jazia sobre a pia e resumia tudo. Era um verso da canção que mudara tudo aquilo que até instantes atrás apenas gestava. 


É piu difficile aspettare in silenzio rumoroso del mare.


ANTES EU PUDESSE


    "Quis o destino" é uma das coisas que falo quando não estou pronto a admitir minha culpa nos acontecimentos. Por exemplo, para justificar aos amigos mais próximos o porque do meu casamento ter acabado. Mas não me engano, sei exatamente o que fiz para que ela me deixasse. Conheço muito bem minhas fraquezas de caráter, minhas pequenezas de temperamento, minhas mesquinharias no dia a dia. Dizem que reconhecer um erro é o primeiro passo para superá-lo. Bobagem! 
    Ainda bem que não tivemos filhos. A verdade é que foi por um triz. Ela engravidou mas acabamos optando por um aborto. Pressão minha, confesso. Não consigo me imaginar com um filho atando-me à esse mundo por mais tempo do que aquele que eu decida como o justo. Esse meu pensamento também contribuiu para que o amor que ela sentia por mim fosse minguando. Muita coisa contribuiu.
   Todo mundo sabe que os casamentos, de uma forma geral, são os grandes predadores do amor. A maioria dos contratos, quando dura é simplesmente porque funciona razoavelmente bem para as conveniências e convenções do dia a dia. Conheço um monte de gente casada que não discorda disso, pelo contrário, acha essa tese perfeitamente natural. Vivem bem assim, sem amor (ou quase) e sem grandes sofrimentos. Eu não conseguiria. Flores de plástico não morrem, como diz a música, mas de que adianta se não estão vivas?
    Ruth, que sempre foi mais esperta do que eu, me disse noutro dia: "Frank, eu até posso entender que você tenha escolhido viver tentando não amar novamente. Mas por que diabos você não aproveitou essa opção e largou para sempre essa sua obsessão pelo amor?" Não respondi mas pensei: "Antes eu pudesse! Antes eu não o tivesse vivido. Antes eu não o tivesse sentido na sua forma mais profunda, aguda, crua. 
Crua.
Antes eu não o tivesse visto na sua abundância e generosidade. Antes eu não o tivesse conhecido na sua versão total, absoluta e incondicional."

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

A HISTÓRIA DO AMOR


Um romance repleto, complexo, completo. Assim é  "A História do Amor" da escritora americana Nicole Krauss. O li em 2006, logo após ser lançado e nunca pude esquecê-lo. Com uma  destreza ímpar e muita sensibilidade, Nicole entrelaça vidas aparentemente distantes no tempo e no espaço.
Um livro que a medida que fui chegando ao fim comecei inconscientemente a frear a leitura  para não "perder o contato" com aqueles personagens.

Uma amostra da beleza da prosa da moça (quando ela lançou o livro tinha apenas 31 anos):


De cor não é uma expressão que uso com desprendimento.
Meu coração é fraco e indigno de confiança. Minha partida será por causa do meu coração. Procuro sobrecarregá-lo o mínimo possível. Se alguma coisa vai representar um impacto, eu a desvio para outro lugar. Para o meu intestino, por exemplo, ou para os meus pulmões, que podem se deter por um instante mas nunca deixaram de dar mais uma respirada. Quando passo por um espelho e me surpreendo num relance, ou se estou no ponto de ônibus e alguns garotos surgem atrás de mim e dizem: Quem está com cheiro de merda?, essas pequenas humilhações cotidianas eu, de modo geral, assimilo no fígado. Outros estragos absorvo em outros lugares. O pâncreas eu guardo para ser atingido por tudo o que foi perdido. É verdade que são muitas coisas, e o órgão é muito pequeno. Porém. Você se surpreenderia de saber quanto ele é capaz de suportar, tudo o que sinto é uma dor aguda, momentânea, e depois acaba. Às vezes imagino minha própria autópsia. Desapontamento comigo mesmo: rim direito. Desapontamento dos outros comigo: rim esquerdo. Fracassos pessoais: kishkes. Não quero dar a impressão de que fiz disso uma ciência. Não é tão bem pensado. Assimilo a coisa onde ela aparece. Acontece que percebo certos padrões. O anoitecer, antes que eu esteja pronto, porque os relógios foram atrasados, sinto, por razões que não consigo explicar, nos meus pulsos. E, quando acordo e os dedos estão enrijecidos, eu quase certamente sonhava com a infância. O terreno onde costumávamos brincar, o terreno onde tudo se descobriu e onde tudo era possível. (Nós corríamos tanto que achávamos que íamos cuspir sangue: para mim, esse é o som da infância, respiração difícil e sapatos esmagando a terra dura.) Rigidez nos dedos é o sonho da infância como ele voltou no final da minha vida. Tenho de corrê-los sob água quente, com vapor embaçando o espelho, lá fora o arrulho de pombos. Ontem vi um homem chutando um cachorro, e a sensação se alojou atrás dos meus olhos. Não sei que nome dar a ele, ao lugar antes das lágrimas. A dor de esquecer: na espinha. A dor de lembrar: na espinha. Todas as vezes em que de repente eu me dava conta de que meus pais estavam mortos, e, ainda hoje, me surpreende que eu exista no mundo se os que me fizeram deixaram de existir: meus joelhos requerem meio tubo de Ben-Gay e uma grande produção só para se dobrarem. Para tudo, o seu tempo, para cada vez que acordei e cometi o erro de acreditar por um instante que alguém dormia a meu lado: uma hemorróida. Solidão: não há órgão que possa suportá-la inteira.


 Nicole Krauss na época do lançamento do livro


quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

DA SÉRIE: ÁLBUNS QUE AMO SEM MAIS NEM PORQUÊ



Não é nem de longe o mais conceituado (apesar de ser bem conceitual). Dizem que nem pode ser considerado um álbum da banda já que o projeto é todo do Roger Waters. Eu não me importo. O que sei é que THE FINAL CUT (1983) marcou minha adolescência, com sua história bem contada, suas belas melodias, com Waters cantando de forma sofrida (o trabalho é dedicado ao pai dele, morto na segunda grande guerra).
Para mim é o post-scriptum perfeito para o The Wall (com o qual se assemelha em vários momentos).

Jamais vou esquecer, na segunda vez que Waters veio ao Brasil, quando tocou The Flecher Memorial Home. A maioria do público na Praça da Apoteose não sabia nem do que se tratava enquanto eu e um punhado de emocionados amigos gritávamos abraçados, a todo pulmão, "Boom boom, bang bang, lie down you're dead".

Pergunte a cem fãs do Floyd quais seus álbuns favoritos da banda e esse não aparecerá na lista nem de cinco deles. Mas na minha está! Por quê? De verdade, a gente precisa mesmo racionalizar os motivos para amar alguma coisa?


(O que é esse solo do Gilmour?)


domingo, 2 de dezembro de 2012

JULIO


Há exatos doze anos perdi meu irmão, e melhor amigo, Julio.
Hoje não haverá poesia.
Hoje não há mesmo um post. É só desabafo mesmo.


(Na foto acima ele aparece paramentado com as cores do seu time de coração, River Plate.
Por conta de um jogo, Boca e River nós ficamos um (maldito) ano brigados. O ser humano é estúpido mesmo. Bem, eu fui).


Só pra deixar claro: sofre mais aquele que fica.