segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

É PIU DIFFICILE ASPETTARE IN SILENZIO RUMOROSO DEL MARE.



    Contemplou a cidade do último degrau da escada que o levaria ao navio. O alaranjado daquela tarde pareceu-lhe brasa viva. O fluxo dos carros, com faróis recém acesos, era como lava espalhando-se lentamente. Mas era seu coração que ardia.
    Quando, oito meses antes, seus pais o convidaram para fazer esse cruzeiro ele não titubiou em aceitar. Os velhos eram boa companhia para alguém sossegado como ele. Dez dias pela costa do Rio, Espírito Santo e Bahia. E com mordomia! Quem não quer? Mas agora tudo mudara. Conhecera uma garota, dias antes na casa de um amigo, e não conseguia pensar em mais nada. Conversaram por horas, beberam juntos. Ela era legal, gostava de gatos, estudava letras. E era linda! Ela convidou-o para que passassem o reveillon juntos, na casa de uns tios, em Copacabana. Na hora dos fogos iriam à praia. Logo ele, que abominava multidões!
    Aos vinte e dois anos ainda não tinha tido uma namorada de verdade, morava com seus pais na mesma casa em que crescera. E trabalhava com seu pai na pequena corretora de seguros que herdaria algum dia. A verdade é que somente agora ele se preocupava em ser (ou não ser) aquele que seus amigos chamavam de "o velho". Nunca se importara de fato com o apelido que recebera por gostar apenas de filmes dos anos 60 e 70 (a melhor fase do cinema, dizia), de rock progressivo (música de uma galera que está com quase cinquenta ou mais. Mas quem liga?) e de clássicos da literatura do século XIX ou início do século XX. Enfim, o apelido não era tão inadequado. 
    No momento em que os demais passageiros (incluindo papai e mamãe) aglomeravam-se no convés esperando que a nave zarpasse ele escutava seu ipod na cabine da família. 
   De repente, uma música deu o sentido que ele tanto precisava.
   Quando seus pais chegaram ele já estava em terra firme.
   Um bilhete, com uma única frase, jazia sobre a pia e resumia tudo. Era um verso da canção que mudara tudo aquilo que até instantes atrás apenas gestava. 


É piu difficile aspettare in silenzio rumoroso del mare.


ANTES EU PUDESSE


    "Quis o destino" é uma das coisas que falo quando não estou pronto a admitir minha culpa nos acontecimentos. Por exemplo, para justificar aos amigos mais próximos o porque do meu casamento ter acabado. Mas não me engano, sei exatamente o que fiz para que ela me deixasse. Conheço muito bem minhas fraquezas de caráter, minhas pequenezas de temperamento, minhas mesquinharias no dia a dia. Dizem que reconhecer um erro é o primeiro passo para superá-lo. Bobagem! 
    Ainda bem que não tivemos filhos. A verdade é que foi por um triz. Ela engravidou mas acabamos optando por um aborto. Pressão minha, confesso. Não consigo me imaginar com um filho atando-me à esse mundo por mais tempo do que aquele que eu decida como o justo. Esse meu pensamento também contribuiu para que o amor que ela sentia por mim fosse minguando. Muita coisa contribuiu.
   Todo mundo sabe que os casamentos, de uma forma geral, são os grandes predadores do amor. A maioria dos contratos, quando dura é simplesmente porque funciona razoavelmente bem para as conveniências e convenções do dia a dia. Conheço um monte de gente casada que não discorda disso, pelo contrário, acha essa tese perfeitamente natural. Vivem bem assim, sem amor (ou quase) e sem grandes sofrimentos. Eu não conseguiria. Flores de plástico não morrem, como diz a música, mas de que adianta se não estão vivas?
    Ruth, que sempre foi mais esperta do que eu, me disse noutro dia: "Frank, eu até posso entender que você tenha escolhido viver tentando não amar novamente. Mas por que diabos você não aproveitou essa opção e largou para sempre essa sua obsessão pelo amor?" Não respondi mas pensei: "Antes eu pudesse! Antes eu não o tivesse vivido. Antes eu não o tivesse sentido na sua forma mais profunda, aguda, crua. 
Crua.
Antes eu não o tivesse visto na sua abundância e generosidade. Antes eu não o tivesse conhecido na sua versão total, absoluta e incondicional."

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

A HISTÓRIA DO AMOR


Um romance repleto, complexo, completo. Assim é  "A História do Amor" da escritora americana Nicole Krauss. O li em 2006, logo após ser lançado e nunca pude esquecê-lo. Com uma  destreza ímpar e muita sensibilidade, Nicole entrelaça vidas aparentemente distantes no tempo e no espaço.
Um livro que a medida que fui chegando ao fim comecei inconscientemente a frear a leitura  para não "perder o contato" com aqueles personagens.

Uma amostra da beleza da prosa da moça (quando ela lançou o livro tinha apenas 31 anos):


De cor não é uma expressão que uso com desprendimento.
Meu coração é fraco e indigno de confiança. Minha partida será por causa do meu coração. Procuro sobrecarregá-lo o mínimo possível. Se alguma coisa vai representar um impacto, eu a desvio para outro lugar. Para o meu intestino, por exemplo, ou para os meus pulmões, que podem se deter por um instante mas nunca deixaram de dar mais uma respirada. Quando passo por um espelho e me surpreendo num relance, ou se estou no ponto de ônibus e alguns garotos surgem atrás de mim e dizem: Quem está com cheiro de merda?, essas pequenas humilhações cotidianas eu, de modo geral, assimilo no fígado. Outros estragos absorvo em outros lugares. O pâncreas eu guardo para ser atingido por tudo o que foi perdido. É verdade que são muitas coisas, e o órgão é muito pequeno. Porém. Você se surpreenderia de saber quanto ele é capaz de suportar, tudo o que sinto é uma dor aguda, momentânea, e depois acaba. Às vezes imagino minha própria autópsia. Desapontamento comigo mesmo: rim direito. Desapontamento dos outros comigo: rim esquerdo. Fracassos pessoais: kishkes. Não quero dar a impressão de que fiz disso uma ciência. Não é tão bem pensado. Assimilo a coisa onde ela aparece. Acontece que percebo certos padrões. O anoitecer, antes que eu esteja pronto, porque os relógios foram atrasados, sinto, por razões que não consigo explicar, nos meus pulsos. E, quando acordo e os dedos estão enrijecidos, eu quase certamente sonhava com a infância. O terreno onde costumávamos brincar, o terreno onde tudo se descobriu e onde tudo era possível. (Nós corríamos tanto que achávamos que íamos cuspir sangue: para mim, esse é o som da infância, respiração difícil e sapatos esmagando a terra dura.) Rigidez nos dedos é o sonho da infância como ele voltou no final da minha vida. Tenho de corrê-los sob água quente, com vapor embaçando o espelho, lá fora o arrulho de pombos. Ontem vi um homem chutando um cachorro, e a sensação se alojou atrás dos meus olhos. Não sei que nome dar a ele, ao lugar antes das lágrimas. A dor de esquecer: na espinha. A dor de lembrar: na espinha. Todas as vezes em que de repente eu me dava conta de que meus pais estavam mortos, e, ainda hoje, me surpreende que eu exista no mundo se os que me fizeram deixaram de existir: meus joelhos requerem meio tubo de Ben-Gay e uma grande produção só para se dobrarem. Para tudo, o seu tempo, para cada vez que acordei e cometi o erro de acreditar por um instante que alguém dormia a meu lado: uma hemorróida. Solidão: não há órgão que possa suportá-la inteira.


 Nicole Krauss na época do lançamento do livro


quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

DA SÉRIE: ÁLBUNS QUE AMO SEM MAIS NEM PORQUÊ



Não é nem de longe o mais conceituado (apesar de ser bem conceitual). Dizem que nem pode ser considerado um álbum da banda já que o projeto é todo do Roger Waters. Eu não me importo. O que sei é que THE FINAL CUT (1983) marcou minha adolescência, com sua história bem contada, suas belas melodias, com Waters cantando de forma sofrida (o trabalho é dedicado ao pai dele, morto na segunda grande guerra).
Para mim é o post-scriptum perfeito para o The Wall (com o qual se assemelha em vários momentos).

Jamais vou esquecer, na segunda vez que Waters veio ao Brasil, quando tocou The Flecher Memorial Home. A maioria do público na Praça da Apoteose não sabia nem do que se tratava enquanto eu e um punhado de emocionados amigos gritávamos abraçados, a todo pulmão, "Boom boom, bang bang, lie down you're dead".

Pergunte a cem fãs do Floyd quais seus álbuns favoritos da banda e esse não aparecerá na lista nem de cinco deles. Mas na minha está! Por quê? De verdade, a gente precisa mesmo racionalizar os motivos para amar alguma coisa?


(O que é esse solo do Gilmour?)


domingo, 2 de dezembro de 2012

JULIO


Há exatos doze anos perdi meu irmão, e melhor amigo, Julio.
Hoje não haverá poesia.
Hoje não há mesmo um post. É só desabafo mesmo.


(Na foto acima ele aparece paramentado com as cores do seu time de coração, River Plate.
Por conta de um jogo, Boca e River nós ficamos um (maldito) ano brigados. O ser humano é estúpido mesmo. Bem, eu fui).


Só pra deixar claro: sofre mais aquele que fica.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

EM XEQUE ESTAMOS NÓS



Rosângela bateu na porta antes de entrar na sala: “Doutora Rebeca, o Danny já chegou para o atendimento. Peço para ela esperar cinco minutos antes de fazê-lo entrar. Não que eu precise repassar a ficha, como acontece com certos pacientes. Danny tem quinze anos e vem duas vezes por semana, há um ano. Na escola recomendaram um acompanhamento por causa da sua dispersão. É um menino como tantos outros. Problemático como tantos outros. Cheio de espinhas na cara, bermudas larguíssimas deixando a mostra a cueca, tênis enormes com cordões soltos. Viciado em jogos de computador, pode passar dezoito horas seguidas jogando em lan houses sem se ocupar do mundo exterior. A mãe veio aqui apenas na primeira vez. É representante de uma grande importadora de vinhos e azeites. Muito ocupada, como quase todas as mães. Quando entrou em seus sapatos de oitocentos dólares e discurso repleto de “eu isso , eu aquilo”, vi logo que ela precisava mais de terapia do que o filho. Mas isso não adiantava dizer. Então eu resolvi ajudar o menino no que fosse possível. Quem o traz é o motorista. É ele que também traz o cheque, todo final do mês. A mãe nunca ligou para saber como a terapia do filho está evoluindo.
Ele gosta de estar aqui, de ter alguém o escutando, duas horas inteiras por semana. Claro, há dias em que está insuportável, se esquece e mente sobre assuntos que já repassamos mais de uma vez. De uma forma geral, é apenas um menino carente. O pai vive viajando: São Paulo, Zurich e Tel Aviv. É executivo de um banco suíço. Esteve preso por vários meses, acusado de evasão de divisas num dos tantos escândalos políticos desse país que não deram em nada. Mas isso não atingiu tanto o menino quanto a vez em que, para separar uma briga entre ele e o irmão mais novo, o pai afundou a cabeça dos dois na água do mar, em uma praia em Búzios. Ele tinha uns oito anos e o irmão seis. Até hoje ele tem horror só de pensar em ir à praia.
Preciso de cinco minutos para me concentrar. Ou para parar de me concentrar nos meus problemas.
Há quase um ano Clara não mora mais conosco. Quando voltou do hospital,  após a tentativa de suicídio, estava deprimida. Fomos nós mesmos que sugerimos que ela passasse uma temporada na casa de meus pais. A idéia era afastá-la do local onde tudo ocorreu e quiçá dos pensamentos sombrios. Foi com uma mochila mas no fim de semana seguinte mandou o motorista buscar praticamente tudo o que tinha no quarto. Ainda não sabemos porque ela fez o que fez. É como se ela nos culpasse. Quase não a vemos. Perdeu o ano na escola. Não liga mais para o computador, nem quer atender telefonemas das amigas de antes. Passa os dias lendo e escutando música. Está amável com os empregados da casa. Quase todas as noites, joga uma partida de xadrez com meu pai, depois do jantar. Ela não suportava o jogo. Meu pai conta que o jogo dela é atirado, que tem um prazer especial em dar o maior número de xeques por partida. Mesmo que não consiga ganhar.
Em xeque estamos nós.
Eu e Rick também nos afastamos, aliás ele se afastou de praticamente tudo. Vai ao escritório apenas uma ou duas vezes por mês para assinar cheques e conversar com os colaboradores que, praticamente, estão assumindo os negócios. O resto do tempo veleja, quase sempre sozinho.
Minha mãe diz que nunca viu Clara tão sossegada. Na sua opinião, isso indica que rapidamente ela vai superar tudo. Eu sei que são os remédios que o psiquiatra receitou que a mantém desse jeito.
“-Boa tarde, Danny. Sente-se por favor.”

terça-feira, 27 de novembro de 2012

UMA GELADA E DOIS COPOS, POR FAVOR


Faço amigos em botequins
ou levo os meus.
Alguns têm face, blog, site.
Outros, só tevê.

Faço amigos em bar.
Amigos de copo!
Alguns têm histórias pra contar 
outros, cicatrizes pra curar.

Faço amigos de porre!
Ou os imagino.
Alguns têm muita sede
outros só bebem por tristeza.

Faço amigos de balcão
não importa em que lado estão!
Alguns querem esquecer
enquanto outros, conseguir lembrar.