De onde vem esse teu amor pelas pedrarias, marcenarias, serrarias, e outras ias? De onde vem esse amor por cobogós surrados, azulejos fora de linha, pelos balcões carcomidos, pelos cornos suspensos, pelas flâmulas empoeiradas? Será que não vês que essa devoção por velharias é inútil? E será que não vês que o tempo consome os homens nas mesas mais do que aos gessos? Peça outro americano lavado, teste a chapinha, dê um óquei. Faça descer e deixe que suba. Daqui a pouco seguirás. Com outras imagens tentarás retardar a tendência novidadeira (a qualquer preço). Inutilmente. Necessariamente, porém. De onde mesmo vem esse teu amor?
Chego em casa e encontro uma carta da Receita Federal jogada por baixo da porta. Pronto, meu dia acabou. "Comparecer no endereço blá blá blá para prestar esclarecimentos levando os documentos tais e tais no prazo de vinte dias úteis." Aborrecimento na certa.
Faltam três dias para o meu aniversário. Nos meus infernos astrais acontecem de quase tudo: há dois anos bateram no meu carro, no ano passado, uma inflamação boba em um dos dedos da mão direita me deixou quatro dias no hospital. São sempre trinta dias de tensão. Minha falecida mãe dizia que eu atraia coisas ruins com essas ideias, que esse negócio de astrologia é para quem não é de Deus. Eu respondia que era exatamente o meu caso. E continua sendo. Mas tenho direito de ser um ateu supersticioso da mesma forma que tem gente que se diz comunista e não larga o ipad. As incoerências nossas de cada dia.
Naquelas manhãs de sábado, subíamos a serra no Aero Willys verde-água de meus pais escutando sempre os mesmos cassetes: Roberto Carlos, Martinho da Vila e o meu favorito, Julio Sosa.
Julio Sosa foi um cantor de tango extraordinário. Dono de uma voz potente e uma capacidade de interpretar que lhe rendeu o apelido de El Varon Del Tango, ele porém, se recusava a interpretar a arrepiante composição de Mores e Contursi, En Essa Tarde Gris. Parece que a letra lhe trazia lembranças dolorosas demais de um amor desfeito, mas a música era tão perfeita para ele que, um dia finalmente, foi convencido a gravá-la. Contam os músicos que participaram da sessão de gravação que Sosa parecia estar o tempo todo com um nó na garganta e que, por isso, tiveram, por diversas vezes, que recomeçar. E quando conseguiu, terminou a gravação aos prantos. O maestro Leopoldo Frederico perguntou então se queria tentar novamente mas ele respondeu "Que quede como está, ya no puedo repetirlo más".
Na volta para casa, dirigindo em alta velocidade, Sosa sofreu um grave acidente , morrendo horas depois no hospital. Era 26 de novembro de 1964. Não sei se por conhecer e me impressionar com essa história desde criança (lembro do meu pai contando-a), cada vez que escuto esse tangaço acabo me emocionando.
Muitos consideram Sosa tão bom, e alguns até melhor, do que a lenda Carlos Gardel. Curiosamente, suas vidas têm vários aspectos parecidos: Nenhum deles é argentino de nascimento, Gardel era francês e Sosa, uruguaio. Ambos tiveram uma morte trágica (Gardel em um desastre de avião), e no auge de suas carreiras. Com vocês, Julio Sosa em sua gravação mais dolente:
Neste fim de semana mágico, vi gente militando pela música latina, enfrentando todo tipo de perrengue para divulgar artistas e ritmos que o mainstream não abarca.
Assisti a uma das minhas bandas favoritas dar um show com músicas poderosas, mas também de profissionalismo.
Vi uma garotada competente tocando bonito junto de gente com mais estrada.
Conheci pessoas de muita "buena onda"!
E vivi uma noite musical das mais divertidas da minha vida. Com a palavra, Maurício Gouveia que sintetizou o que aconteceu nesta sexta feira com muita competência e sensibilidade:
"Muitos dos momentos mais mágicos e
incríveis do ROCK´n´ROLL – e da Arte, em geral – NÃO ACONTECERAM SOB OS
HOLOFOTES. O momento de inspiração que gerou aquela nossa canção favorita, a
conversa em que Mick Jagger e Keith Richards decidiram montar uma banda, a Jam
session numa boate do Rio, nos anos 70, em que Stevie Wonder tocou bateria, o
Jorge Ben guitarra e Sérgio Mendes foi pro piano (isso aconteceu mesmo, é
sério).
Na noite de ontem rolou um desses
momentos indescritíveis & INESQUECÍVEIS, desses que fogem ao script e
elevam a alma às alturas! A banda PEZ recebeu a equipe da Locos Hermanos,
alguns jornalistas e fãs no hotel Mango Mango. Vinho, tábuas de frio, sonidos
suaves de fondo e bate papo descontraído. Después fomos todos pro estúdio
PEDALADEIRA. Los Vulcânicos e a banda Enio & A Nóia tocaram algumas
canções, e Nelson Burgoz levou algumas das suas canções acompanhado do Dony
Escobar, do Filipe e do zozio RL. Mas é claro que tudo havia sido planejado,
desde o início, para que batesse a coceira no Ariel, no Fósforo Garcia e no
Franco...
E ROLOU A JAM SESSION COM O PEZ!!! Os 20
pares de ouvidos que tiveram o privilégio de estarem já assistiram a banda se
soltando e brincando, no maior alto astral e despojamento!
No momento mais loco
da noite, de um jeito que não saberia explicar como, DJ Ácaro e Felipe Proença
cantaram “Ziggy Stardust” do Bowie, com todos os músicos juntos &
mesclados!!!"
Responda rápido: o que os álbuns a seguir têm em comum (além de serem TODOS maravilhosos)?
Doomsday Afternoon (Phideaux) Divisor de águas na sua carreira do americano Phideaux Xavier, este é um álbum primoroso do início ao fim. Seus três trabalhos seguintes mantiveram o padrão.
Nigth (Gazpacho) Um álbum denso, cheio de climas distintos. É meio covardia colocar o Gazpacho nessa lista porque todos os álbuns desse grupo estarão nas listas dos melhores dos anos em que foram lançados.
Sleeping in Traffic - Part One (Beardfish)Trabalho de grande fôlego desses suecos. A parte 2 faz um par perfeito.
Sound of Apocalipse (Black Bonzo) Sem dúvida o melhor álbum da carreira destes também suecos. O vocalista Magnus Lindren é um dos melhores em atividade.
Rapid Eye Movement (Riverside) Vigor e competência diretamente da Polônia (um dos cenários mais interessantes do progressivo europeu contemporâneo).
Sola Scriptura (Neal Morse) O mestre em uma obra magnânima. As músicas são tão extensas quanto belas.
2ns Hands (The Gourishankar) Esta banda russa, que canta em inglês, conseguiu sair do anonimato diretamente para a lista das melhores da década.
Fear of a Blank Planet (Porcupine Tree) Steven Wilson e Cia num dos melhores álbuns da carreira da banda. Destaque para a música Anesthetize.
Oblivion Sun (Oblivion Sun) O menos conhecido dessa lista foi uma bela surpresa. Pelas citações que fazem estes americanos devem ser ótimos ouvintes.
Blackfield II (Blackfield) O casamento musical do incansável Steven Wilson com o israelense Aviv Geffen em seu momento mais sublime.
Conseguiu responder? O fato é que foram lançados no mesmo ano: 2007. Do terceiro milênio não consigo pensar em outro que concentre tão boa relação quantidade/qualidade.
Já tentei fazer o mesmo exercício para este ano ou o anterior mas não consigo passar de cinco ou seis.
Estarei exigente demais ou sou apenas um desinformado?