No dia 19 de dezembro de 2000 meu pai faleceu. Dezesseis dias do meu amado irmão Julio (clique aqui). Sim, foi desgosto. Na época fiz esse poema. Já se foram quase doze anos. E não passa!
que louvasse o amor maduro
aquele que vem com o tempo
tranquiliza os temperamentos
e substitui a paixão.
Queria cantar nesse samba
a calma que ele traz.
Aplacamento da libido,
esfriamento dos calores,
hormônios acondicionados
desejo que vira amizade.
Queria mas não posso
porque esse amor não há.
Amor não amadurece
tem que estar sempre novo
ou diretamente, apodrece.
Amor exige presença
e quer todo o tempo (im)possível.
Amor é paixão e o reverso
é começar a conversar quando o sol se põe
e não querer parar nem quando amanhece.
Amor é desejo profundo
é gostar dos gostos e desgostos do outro
querer estar mais e sempre junto.
E no samba,
isso há de contar.
No samba do amor maduro
a segurança não valeria.
Mas qual relação tem
certificado de garantia?
O amor é cheio de medos
de ganhar e não saber manter
de não escolher palavras certas
de perder!
O amor tem dúvidas!
Mas afinal, vale a pena.
se depois de todos os riscos
carnes se amalgam
se fazem líquidas,
evaporam. Plenas!
O samba do amor maduro
na verdade seria um triste samba canção.
Enquanto que o do amor real,
cheio de acertos e erros,
esse amor que nos lancina,
é um samba enredo completo,
de escola campeã.
Porque existe a música, porque existe Pachelbel e especificamente porque existe Canon
& Gigue In D-Canon.
Que Vivaldi, Bach, Mozart, Beethoven, Mahler, ... me perdoem a ousadia, mas essa é uma das composições eruditas mais emocionantes que conheço.
E principalmente me perdoem aqueles que conhecem mais de música clássica do que eu.
Aqui pertinho, em Niterói, há a Orquestra de Cordas da Grota, um grupo que tive a feliz oportunidade de assistir em 2010 na Igreja da Candelária, no Centro do Rio. A Orquestra, além de prezar a formação musical e na educação complementar também fica de olho na inclusão social.
Mais do que um exemplo, um requinte (num país de tão poucas oportunidades nessa área).
O que Astor Piazzolla, Michel Legrand, Philip Glass, Quincy Jones, Lenox Berkeley, Claudio Santoro, Burt Bacharach, Leonard Berstein, Aaron Copland, Daniel Barenboim e Egberto Gismonti têm em comum? Nada?
Errado.
Nadia.
Todos eles foram alunos da professora Nadia Boulanger (1887-1979).
Sua avó era cantora lírica e seu avô violoncelista. Filha de um pianista com uma princesa russa, essa francesa começou a estudar órgão e composição aos seis anos. Aos dez entrou para o conservatório e começou a reger aos 25 anos, algo incomum para as mulheres naquela época.
Sua irmã mais nova, Lili Boulanger, seguia os passos da família. Em 1913, aos 19 anos, se tornou a primeira mulher a ganhar o Prix de Rome (Nadia tirara o segundo lugar, cinco anos antes).
Porém, em 1918, aos 24 anos, Lili morre e Nadia, profundamente abalada, decide nunca mais compor. Neste instante começa a carreira de uma das maiores professoras de música de todos os tempos. Seu alunos a descreveram como tão exigente quanto afetuosa. Disseram que ela era capaz de sugerir mudanças que podiam modificar totalmente a estrutura de uma obra com a mesma simplicidade que oferecia um café. E imediatamente após escutá-la pela primeira vez.
Leonard Berstein beija a mão da mentora
Seu grande amigo, Igor Stravinski, enviava-lhe todas as suas composições tão logo as finalizava para que Nadia pudesse emitir uma opinião.
Como nem ela ou sua companheira Annette Dieudonné, registraram seus alunos particulares conhecemos apenas aqueles que estudaram com ela no Conservatório Americano, em Fointeneblau, e no conservatório de Paris mas mesmo assim a lista é imensa. No excelente documentário Mademoiselle Nadia Boulanger, de Bruno Monsaingeon (disponível no youtube com áudio em francês e legendas em inglês) fala-se em milhares.
Pequeno trecho do documentário
Nadia foi venerada por muitos de seus pupilos e reconhecida mundialmente. Para se ter uma ideia, em 1967, por ocasião dos seus 80 anos, houve uma apresentação de gala da Ópera de de Monte Carlo (penso que em Monte Carlo todas as apresentações são de gala), com algumas de suas peças favoritas. No programa distribuído aos convidados a reprodução de uma litografia de Marc Chagall onde se lê "Pour Nadia Boulanger 1967", presente encomendado pelo príncipe Rainer e pela princesa Grace.