sexta-feira, 10 de agosto de 2012

QUASE-SONETO




Desafiou-me Evandro: Faça um soneto!
Competitivo que sou, logo aceitei o fado
ainda que métricas, (quadras e tercetos?)
saiba tão pouco que quiçá exagerei!

Acordo muito cedo, antes dos galos
E umas quadrinhas bobas traço, errático
Ainda que muitas provas, dados e os fatos.
digam-me: pare, tolo. Seja prático!

Mas, ora, a disputa já está comprada
esqueço então compromisso, dia e a hora
nada mais de conversa fiada, papo.

Tal aqueles  belos galos que espantam
à calma uns  alexandrinos exibirei
de um soneto, sua essência, sua alma.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

OBTUÁRIO

No dia 19 de dezembro de 2000 meu pai faleceu. Dezesseis dias do meu amado irmão Julio (clique aqui). Sim, foi desgosto. Na época fiz esse poema. Já se foram quase doze anos. E não passa!

Papai e os homens da família no seu último natal 
(só faltou o Marcello que estava viajando) 



Meus amigos, atenção:

Morreu meu pai !

Atenção, atenção :
 “El Chino” está morto !
Com ele,
a ilusão da minha eternidade.

Não há mais parâmetros confiáveis
para a medida de meus dias.

Casamentos aos 23 e aos 50.
Filhos aos 24, 27, 52 e 53.
Sete netos e três bisnetos.

Jovem, foi ator de teatro,
galã disputado.
Depois, foi vender roupas
“que com família, há que se ter pé no chão”,
me disse um dia.

Imigrou para importar frutas.
Faliu.
Estava aposentado.

Não haverão mais aqueles discursos emocionados
que nos dias de festa,
tanto me envergonhavam, quando criança.
Ver meu pai ali,
de paixão exposta...
Achava que o silêncio dos outros
era desconforto, no máximo, respeito.
Só agora entendi
que era fascinação.

Aos 87
de tudo o que se pode morrer
exceto do teimoso coração
que falhou por trinta anos.

Não deixa bens,
tampouco dívidas.
Mas muita saudade.


terça-feira, 7 de agosto de 2012

SAMBA DO AMOR MADURO



Queria compor um samba
que louvasse o amor maduro
aquele que vem com o tempo
tranquiliza os temperamentos
e substitui a paixão.

Queria cantar nesse samba
a calma que ele traz.
Aplacamento da libido,
esfriamento dos calores,
hormônios acondicionados
desejo que vira amizade.

Queria mas não posso
porque esse amor não há.
Amor não amadurece
tem que estar sempre novo
ou diretamente, apodrece.

Amor exige presença
e quer todo o tempo (im)possível.
Amor é paixão e o reverso
é começar a conversar quando o sol se põe
e não querer parar nem quando amanhece.

Amor é desejo profundo
é gostar dos gostos e desgostos do outro
querer estar mais e sempre junto.
E no samba,
isso há de contar.

No samba do amor maduro
a segurança não valeria.
Mas qual relação tem
certificado de garantia? 

O amor é cheio de medos
de ganhar e não saber manter
de não escolher palavras certas
de perder!

O amor tem dúvidas!
Mas afinal, vale a pena.
se depois de todos os riscos
carnes se amalgam
se fazem líquidas,
evaporam. Plenas!

O samba do amor maduro
na verdade seria um triste samba canção.
Enquanto que o do amor real,
cheio de acertos e erros,
esse amor que nos lancina,
é um samba enredo completo,
de escola campeã. 

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

VOCÊ



É sobre você que falo
com estranhos em qualquer lugar.
É sobre você e não sobre mim  
que meus pedidos a Deus recaem.

É sobre você e não sobre mim 
já que o fogo não existe sem ar.
É sobre você que penso
quando deveria trabalhar.

É sobre você que meus beijos
sonham em se instalar.
É sobre você e não sobre mim
que o sol insiste em brilhar.

É sobre você e não sobre mim
que nesses versos se canta.
É sobre você que meu corpo pede
que se faça minha última cama.

DESCOMPASSO



Limpa, a nave jaz agora
onde foi parar aquela pertença?
os linhos estão frios 
e o roçar dos nervos encerram
uma erupção de pouca lava.

Envergonho-me,
Peco à esquerda novamente.
Imagens tantas vezes vistas
não revelam o que foi antes, o agora e a era.
Sim, vai!

Branca, a nave jaz agora
onde foi parar aquela premência?
O aguardo do tempo 
e o estar em ti, ausente,
leva minha carne ao descompasso.

Cubro-me,
mordo o rebordo da boca
enquanto consome-se a queda.
A mobília não percebe (poderia?)
que são outras as cercas, as pedras e a cal.
Não! Acerca! 

domingo, 5 de agosto de 2012

PACHELBEL E A GROTA


Porque existe a música, porque existe Pachelbel e especificamente porque existe Canon & Gigue In D-Canon.
Que Vivaldi, Bach, Mozart, Beethoven,  Mahler, ... me perdoem a ousadia, mas essa é uma das composições eruditas mais emocionantes que conheço.

E principalmente me perdoem aqueles que conhecem mais de música clássica do que eu.

Aqui pertinho, em Niterói, há a Orquestra de Cordas da Grota, um grupo que tive a feliz oportunidade de assistir em 2010 na Igreja da Candelária, no Centro do Rio. A Orquestra, além de prezar a formação musical e na educação complementar também fica de olho na inclusão social.

Mais do que um exemplo, um requinte (num país de tão poucas oportunidades nessa área).



N.B.


O que Astor Piazzolla, Michel Legrand, Philip Glass, Quincy Jones, Lenox Berkeley, Claudio Santoro, Burt Bacharach, Leonard Berstein, Aaron Copland, Daniel Barenboim e Egberto Gismonti têm em comum? Nada?
Errado. 
Nadia.
Todos eles foram alunos da professora Nadia Boulanger (1887-1979). 


Sua avó era cantora lírica e seu avô violoncelista. Filha de um pianista   com uma princesa russa, essa francesa começou a estudar órgão e composição aos seis anos. Aos dez entrou para o conservatório e começou a reger aos 25 anos, algo incomum para as mulheres naquela época.
Sua irmã mais nova, Lili Boulanger, seguia os passos da família. Em 1913, aos 19 anos,  se tornou a primeira mulher a ganhar o Prix de Rome (Nadia tirara o segundo lugar, cinco anos antes). 
Porém, em 1918, aos 24 anos, Lili morre e Nadia, profundamente abalada, decide nunca mais compor. Neste instante começa a carreira de uma das maiores professoras de música de todos os tempos. Seu alunos a descreveram como  tão exigente quanto afetuosa. Disseram que ela  era capaz de  sugerir mudanças que podiam modificar totalmente a estrutura de uma obra com a mesma simplicidade que oferecia um café. E imediatamente após escutá-la pela primeira vez.


Leonard Berstein beija a mão da mentora

Seu grande amigo, Igor Stravinski, enviava-lhe todas as suas composições tão logo as finalizava para que Nadia pudesse emitir uma opinião.
Como nem ela ou sua companheira Annette Dieudonné, registraram seus alunos particulares conhecemos apenas aqueles que estudaram com ela no Conservatório Americano, em Fointeneblau, e no conservatório de Paris mas mesmo assim a lista é imensa. No excelente documentário Mademoiselle Nadia Boulanger, de Bruno Monsaingeon (disponível no youtube com áudio em francês e legendas em inglês) fala-se em milhares. 



Pequeno trecho do documentário

Nadia foi venerada por muitos de seus pupilos e reconhecida mundialmente. Para se ter uma ideia, em 1967, por ocasião dos seus 80 anos, houve uma apresentação de gala da Ópera de de Monte Carlo (penso que em Monte Carlo todas as apresentações são de gala), com algumas de suas peças favoritas. No programa distribuído aos convidados a reprodução de uma litografia de Marc Chagall onde se lê "Pour Nadia Boulanger 1967", presente encomendado pelo príncipe Rainer e pela princesa Grace.