segunda-feira, 18 de março de 2013

PEQUENA SUÍTE OUTONAL (POR UM TRIZ)


Evening Rainfall, 1987, de Ivan Krutoyarov

 I

Tarde.
 Quase outono. O vento,
o vento.


Exercício da solidão é modo,

não propósito.
As vicissitudes do dia a dia
são como heras.

Arrancá-las superficialmente só
adia.


II

É tarde.
 Quase a ouço. A chuva,
a chuva.
Assimilação da solidão é fim,

antes fosse apenas meio.
As incompletudes da vida
são incêndio.

Lá fora, água fria, aqui dentro
ardia.


TEU

Eve Temptation, de ENZZOK


Teu corpo sempre
enigma,
indecifrável receita,
de algum tomo esquecido.

Teu corpo sempre 

mistério,
impossível 
quebra-cabeça 
de um trilhão de peças.
 
Teu corpo sempre
crime,
insolúvel. Passional? 
Ora, qual mais seria? 

Teu corpo sempre 
pecado,
Eva e a serpente,
inimigas de fino trato. 

Teu corpo sempre 
delito,
muita perícia, muitas pistas 
mas pouco inquérito.

Teu corpo sempre 
ilícito,
deitado sobre o meu engole
cada gota do meu cerne.


domingo, 17 de março de 2013

ROSAS (PARTE 2)


Na primeira vez que a vi nua
fui seduzido de cara pelos rosas
de sua crua carne,
de suas mucosas com aroma de mar
e morte.


Com fúria sombria
escalei seu montes,
mergulhei em vales.
Vencida, sua relva revelou
um agridoce regato onde saciei
minha sede e minha pressa.

Na primeira vez que a vi nua,
perdi tudo de uma vez:
os sentidos, o juízo e as palavras.




ROSAS (PARTE 1)


Ainda lembro bem
de seu generoso abrigo,
daquelas doces e irracionais ofertas.
Não pude aceitar todas,
mas nunca regateei
os carinhos fartos.


Seus braços estendidos impediram
muitas (e muitas) vezes
minha queda.


Ainda lembro bem
dos seus rosas, daquelas tardes
que dividíamos, entre culpas
e entrega.



quarta-feira, 13 de março de 2013

SEU PRÓPRIO ESPANTO




Daquelas férias na fazenda do tio ele guarda lembranças dispersas mas definitivas. Quase todas ainda conservam aquele arcabouço de grandeza sobre o qual somente as crianças podem se erguer (naquele tempo responsabilidades e culpas ainda não tinham sido inventadas). 
O banho friíssimo no dia mal nascido; os bolos de milho que a tia fazia todas as tardes, servidos quentinhos com manteiga derretendo por cima; As goiabeiras do fundo da casa grande, tão carregadas que se curvavam como anciãos; o escarcéu dos animais no cio; a grande figueira sob a qual, todas as noites, os peões contavam histórias tenebrosas.
Mas principalmente, ele se lembra,  do seu próprio espanto quando descobriu que os porcos não conseguem olhar para o céu.

segunda-feira, 11 de março de 2013

ESTRAGO




Ouço um estalo,
dou um passo. Não vem de dentro
ainda que a estrutura 
toda se retraia.

Elogio sua beleza,
ela retribui. Será demência
ou é um tipo de amor 
que sinto nesse trato?

No fundo sou um menino bobo,
pouca ação e muitas falas. 
Sem jeito, me calo
e apenas ouço o estrago.


Drowning in Silence, de Jiri Dvorsky

sábado, 9 de março de 2013

DÉJÀ VU



O celular toca no meio da tarde. Sem meus óculos não vejo o número de quem liga. Atendo, a voz é de homem e me soa vagamente familiar. Quando finalmente a identifico vem a consternação: sou eu mesmo do outro lado, na realidade um eu de anos atrás. Nossa conversa é caótica, um Déjà Vu perturbador. Ele me odeia por muitas coisas, algumas com motivo, mas principalmente pelo que represento: seu fracasso iminente. Eu próprio já estive do outro lado da ligação, também cheio de certezas. Não consigo convencê-lo da inutilidade de tudo aquilo. Quanto mais ele vocifera mais cansado eu fico. Depois de alguns minutos encerramos sem chegarmos a qualquer conclusão, é claro.
O episódio todo parece um infeliz conto borgeano. Horas depois ainda ouço-lhe a voz.