domingo, 17 de março de 2013

ROSAS (PARTE 1)


Ainda lembro bem
de seu generoso abrigo,
daquelas doces e irracionais ofertas.
Não pude aceitar todas,
mas nunca regateei
os carinhos fartos.


Seus braços estendidos impediram
muitas (e muitas) vezes
minha queda.


Ainda lembro bem
dos seus rosas, daquelas tardes
que dividíamos, entre culpas
e entrega.



quarta-feira, 13 de março de 2013

SEU PRÓPRIO ESPANTO




Daquelas férias na fazenda do tio ele guarda lembranças dispersas mas definitivas. Quase todas ainda conservam aquele arcabouço de grandeza sobre o qual somente as crianças podem se erguer (naquele tempo responsabilidades e culpas ainda não tinham sido inventadas). 
O banho friíssimo no dia mal nascido; os bolos de milho que a tia fazia todas as tardes, servidos quentinhos com manteiga derretendo por cima; As goiabeiras do fundo da casa grande, tão carregadas que se curvavam como anciãos; o escarcéu dos animais no cio; a grande figueira sob a qual, todas as noites, os peões contavam histórias tenebrosas.
Mas principalmente, ele se lembra,  do seu próprio espanto quando descobriu que os porcos não conseguem olhar para o céu.

segunda-feira, 11 de março de 2013

ESTRAGO




Ouço um estalo,
dou um passo. Não vem de dentro
ainda que a estrutura 
toda se retraia.

Elogio sua beleza,
ela retribui. Será demência
ou é um tipo de amor 
que sinto nesse trato?

No fundo sou um menino bobo,
pouca ação e muitas falas. 
Sem jeito, me calo
e apenas ouço o estrago.


Drowning in Silence, de Jiri Dvorsky

sábado, 9 de março de 2013

DÉJÀ VU



O celular toca no meio da tarde. Sem meus óculos não vejo o número de quem liga. Atendo, a voz é de homem e me soa vagamente familiar. Quando finalmente a identifico vem a consternação: sou eu mesmo do outro lado, na realidade um eu de anos atrás. Nossa conversa é caótica, um Déjà Vu perturbador. Ele me odeia por muitas coisas, algumas com motivo, mas principalmente pelo que represento: seu fracasso iminente. Eu próprio já estive do outro lado da ligação, também cheio de certezas. Não consigo convencê-lo da inutilidade de tudo aquilo. Quanto mais ele vocifera mais cansado eu fico. Depois de alguns minutos encerramos sem chegarmos a qualquer conclusão, é claro.
O episódio todo parece um infeliz conto borgeano. Horas depois ainda ouço-lhe a voz.

sexta-feira, 8 de março de 2013

CADERNOS



Não tenho problema algum em escrever "no computador" (ou mesmo no bloco de notas do iPod ou do celular); a tela vazia não me apavora mais ou menos do que uma folha em branco. Algumas vezes até, já escrevi diretamente neste blog, sem rascunhos de qualquer natureza, apenas com e pelo  calor que emana das palavras.
Porém, porém, porém... 

EU GOSTO MESMO É DE CADERNOS!

terça-feira, 5 de março de 2013

DÍVIDA

Afraid, de Tatomir Pitariu

Devo, não nego,
pagar por meu alheamento,
sobre esses versos insipientes
deitar-me só.

Devo, não nego,
aceitar essa singularidade
como reflexo de meus desatinos
e de meus não atos. 

Devo, não nego,
caminhar por estreitas vias.
Essa minha estreita vida
labiríntica.

domingo, 3 de março de 2013

CALMARIA É MEU SOBRENOME


"Destructive Rain"de InperFectionCreation


Uma miríade de lembranças me invade.
Nossas chuvas! Nossas chuvas!
Aquela tempestade de raios que saboreávamos
entre beijos de gosto amargo.
Oh, and all I taught that was everything
Oh, I know she gave me all that she wore
And now my bitter hands chafe beneath the clouds
Of what was everything?
Oh, the pictures have all been washed in black, tattooed everything
Aquele vigor destrutivo não mora mais aqui.
Calmaria é meu sobrenome hoje.