sábado, 19 de janeiro de 2013
BIOMASSA
Singro à velhice relutante,
meu corpo (às vezes) aceita,
a cabeça resiste.
Caminho por um chão de folhas mortas, galhos partidos cascas de árvores,
restos.
Afundo meus pés
nessa matéria orgânica se decompondo.
A sensação é de vida trocando de forma.
(Ou serei eu procurando algum sentido?)
A vida trocando de forma e eu inerte.
Singro à velhice, não à maturidade.
Brincávamos de viver, um erro atrás do outro.
Um erro atrás do erro do outro!
Afundo meus pés
na areia da praia, nesses grãos imortais
porque vivos jamais estiveram.
Essa é a sorte das matérias inorgânicas:
não sofrem a queda
porque jamais conheceram o apogeu.
Ao contrário de nós.
A QUEM INTERESSAR POSSA
Um leitor ideal(izado) do blog gostaria de saber quais de minhas postagens são autobiográficas?
Nesse caso eu responderia à moda de Philip Roth. Em uma entrevista perguntaram-lhe a mesma coisa sobre seus livros. Ele disse mais ou menos o seguinte:
"Seu questionamento está errado. Você deveria perguntar: o que NÃO é?"
domingo, 13 de janeiro de 2013
A DÚVIDA
Man Writing A Letter - Gabriel Metsu (1629-1667)
O bilhete que ele muitas vezes pensou em escrever mas nunca teve coragem suficiente. Teria adiantado alguma coisa?
"Você tem noção que o teu silêncio sobre aquilo que me aflige é mais eloquente do que quaisquer palavras? Teu silêncio é a forma que você encontrou para dizer o quanto estou errado".
sábado, 12 de janeiro de 2013
SATÉLITE
Orbito,
gravito em torno dela
como um satélite errante.
Necessito coordenadas
posto que meus cálculos, minha
geometria
já não servem.
Orbito,
perdido em torno dela
oriento-me apenas pelos sinais que me emite.
Navego às cegas, por instrumentos
e cumpro sem questionar
as revoluções que me
outorga.
Orbito,
habito em torno dela
sem jamais decifrar seus códigos de lançamento
lamento a artificialidade de minha cápsula.
Temo sua trajetória caótica
apesar disso placidamente aceito meu destino.
Temo sua trajetória caótica
apesar disso placidamente aceito meu destino.
FIVE YEARS ON MARS
Amávamos
Bowie (ainda amamos?)
Eu
apresentei-lhe Five Years,
na
verdade todo o Ziggy.
Ela
me fez escutar Life on Mars, a sua favorita.
Fazíamos
amor escutando Absolute Beginners
e
dormíamos deixando rolar o Space Oddity.
Quando
brigamos pela última vez
escutávamos
o Pin Ups,
e
ela esperou que terminasse antes de sair de casa.
Amávamos
Bowie e nos amávamos.
O DIA
O
dia nascia indeciso
sobre
as cores que vestiria.
Com
o teto em Vênus
eu
nem percebia.
O
dia crescia perdido
revezavam-se
vento e calmaria.
As
horas, implacáveis,
seguiam
cumprindo.
O
dia corria indevido
entre
a sede e a espera.
Ardiam
em meus olhos
as
securas
do ar e da tragédia.
O
dia caia esquisito
ou
era minha memória?
Esperávamos
chuva?
Esperávamos
trégua?
O
dia morria esquecido,
sem
se saber ao certo.
Com
a bússola em Vênus
eu
alternava pânico e regojizo.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
O QUE É BONITO?
Na paz desses primeiros dias de férias, entre as centenas de músicas que escuto, uma se destaca: "O que é bonito?", do álbum "Olho de Peixe", gravado em 1992, por Lenine e Marcus Suzano. Com uma sonoridade muito bem cuidada talvez esse seja o mais belo álbum da música brasileira (sem exagero). As composições formam um todo harmonioso e cem porcento conceitual, como gostam meus companheiros do rock progressivo.
Em "O que é bonito"?, de Lenine e Bráulio Tavares a melodia emoldura um poema tocante e absurdamente bem construído. Para começar o ano bem!
(os negritos são meus, é claro)
O
que é bonito
É o
que persegue o infinito
Mas
eu não sou
Eu
não sou, não...
Eu
gosto é do inacabado
O
imperfeito, o estragado que dançou
O
que dançou...
Eu
quero mais erosão
Menos
granito
Namorar
o zero e o não
Escrever
tudo o que desprezo
E
desprezar tudo o que acredito
Eu
não quero a gravação, não
Eu
quero o grito
Que
a gente vai, a gente vai
E
fica a obra
Mas
eu persigo o que falta
Não
o que sobra
Eu
quero tudo
Que
dá e passa
Quero
tudo que se despe
Se
despede e despedaça
O que
é bonito...
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