segunda-feira, 5 de novembro de 2012

OS MELHORES DA PLAYBOY


Pode parecer piada para a garotada de hoje em dia mas no tempo em que eu era criança/adolescente era comum os adultos (homens, é claro) dizerem que compravam a revista Playboy para ler as entrevistas. As pessoas davam um risinho, mas não podiam contradizê-los, afinal, era senso comum que aquelas entrevistas eram boazudas mesmo. 
Mas eu não comprava por isso. Além de atender à solicitação de meus hormônios a revista trazia algo muito melhor do que as tais entrevistas. Os contos. De autores razoavelmente consagrados,  outros que se consagrariam depois ou "apenas" de bons escritores, não havia um número em que aqueles relatos não me surpreendessem. Histórias de mistério, suspense, drama. Recheadas de  disputas, mortes, redenções. Fascinava-me a capacidade de, em algumas páginas, personagens exibirem tanta verossimilhança (bem, naquele tempo eu não conhecia essa palavra, mas o sentido sim).
Agora, olhando para aqueles dias, confesso que os tais contos me parecem melhores ainda. Afinal, a concorrência que havia, duas páginas antes ou duas páginas depois era realmente de arrasar.

domingo, 4 de novembro de 2012

PEZ no Rio!

EXTRA! EXTRA!


Acabei de saber que a banda argentina PEZ, vem ao Brasil para uma série de apresntações. No Rio, eles tocam no dia 17 deste mês no Teatro Rival.  Nunca escondi que eles são meus favoritos do rock argentino atual. Aqui, lá e acolá eu espalho da capacidade de Ariel Minimal em compor poemas melódicos; cortantes e ao mesmo tempo tocantes.
A música a seguir é um maravilhoso exemplo disso. Que lindos os versos "Si el destino me quiere en el sur/ viajaré temprano con la luz./ Cielo todo el día y a la noche barro."


(ouça-a desfrutando da letra):


Desde el viento en la motaña hasta la espuma del mar
mojo mis pies y vuelvo a volar.
No pregunto en la mañana hacia dónde debo ir,
ya lo sabré, el tiempo dirá.
Si el destino me quiere en el sur
viajaré temprano con la luz.
Cielo todo el día y a la noche barro.
Si la lluvia moja mi alma el aire la va a secar.
Si no hay un dios algo bueno habrá.
Y el rocío y cierta calma y el último sol de abril
me embestirán, tendré que partir.
Nada hay más cierto que sentir,
nadie más que yo sabrá elegir.
Cielo todo el día y a la noche barro,
árbol dame asilo
y un paisaje endemoniado, 
la tormenta por venir.
Si hoy no llego a ningún lado
mejor es dormir, mejor que morir.
Cielo todo el día y a la noche barro.


SÓ QUANDO NÃO HAVIA OUTRA



1983
Eu andava pelos sebos de livros, examinava como os preços eram marcados para depois aumentá-los! Explico essa lógica aparentemente absurda. Com preços mais altos a chance de serem vendidos diminuia. E era uma operação simples. Cada loja tinha um jeito mas o padrão era o mesmo. O da Rua São José marcava no alto da contracapa com lápis 6B. Já o da Rua da Assembléia marcava na última página do miolo, embaixo e centralizado com lápis 2B. Todas as manhãs eu percorria um circuito praticamente fixo: São José, Assembléia, Primeiro de Março e Ouvidor. Em cada um deles eu lia um livro, de pé, em frente as estantes, só algumas páginas por dia. O objetivo do pequeno quase-estelionato era desestimular a venda por algum tempo, o suficiente para conseguir terminar a leitura. E funcionava quase sempre. Quando dava sorte e havia livros iguais em mais de um sebo a coisa toda andava mais rápido. Senão eram quatro livros diferentes mesmo. Eu variava os estilos para não ficar enfadonho. Algumas vezes era difícil fazer a combinação. A prosa complexa de Faulkner, por exemplo, exigia escolhas mais amenas para complementá-la: um romance policial básico, alguma antologia poética, uma coletânea de contos de ficção científica.
Desde que Julio fechou a loja, um pouco depois da morte de dona Ermínia, não consegui mais encontrar um emprego que tivesse horários compatíveis com o da escola. Estava próximo de prestar vestibular e além de ir às aulas, precisava de tempo para estudar.
Na faculdade, os horários ficaram ainda piores. Comecei então a dar aulas particulares de inglês para não ter que voltar a depender dos meus pais, quer dizer, da minha mãe, já que meu pai agora gastava seu parco dinheiro adquirindo itens para sua recém-começada coleção de bolachas de cerveja.
Minhas despesas eram baixas mas não havia margem para excessos. Comprar livros? Só quando não havia outra escolha. Com tantas palavras acumuladas, comprar LPs passou a ser minha prioridade absoluta.

sábado, 3 de novembro de 2012

DESTERRO (OU ANTES DO FIM)



Eles se desconsertavam. 
Uma vez ele a deixou passada.
“Você sabe que está fazendo comigo o que ninguem fez?”
“O que?”
“Estou perdidamente apaixonada!”
“Eu não. Estou achadamente apaixonado.”
Numa outra ocasião, enquanto falavam ao telefone ele disse:
“Estou sentindo a tua falta.”
Desta vez ela o calou:
“Estou sentindo a tua presença.”

De repente, não mais que de repente...

Cai o pano.

CIRCULANDO (OU O MUNDO É GRANDE)



Pelo bairro te procuro
nas lojas, botequins.
Engarrafamentos são benvindos!
Da tua antiga rua conheço
cada nó (na garganta e) no calçamento.

Lá no samba que já foi tua segunda casa
hoje sou um habituée
todos me conhecem,
cliente vip de gorjeta generosa
mas não vejo o que mais queria ver.

Frequento a praia bem onde você ia
dos teus restaurantes favoritos não saio mais
na noite, teus points, já tão fora de moda
me possuem,
como o ímã ao metal.

Mas se te encontrar, nem sei,
se falo, me escondo ou se te sigo.
Tenho minha alma engastada de medo 
(pelas lembranças e)
por tudo o que achei que poderia.

É que se você me esqueceu
perco tudo o que tinha
e pior, ainda o que tenho por sonhar.
Prefiro seguir circulando por essa cidade
do que simplesmente despertar.


sexta-feira, 2 de novembro de 2012

FINADOS


Da minha casa da infância
só eu resto.
Já tive outras casas, é certo.
Da minha casa da infância
só eu. 
Resto.

O melhor e o pior em mim
aprendi nas despedidas.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

SONHO #925


Experiment  I, de Erlend  Mørk
Numero sonhos.
Homero, 
sem nau 
cavalo ou leste.

Numero sonhos.
Verso
sem musa 
rima ou verve.

Numero sonhos.
Peste,
sem dor 
pus ou febre.

Numero sonhos.
Berro
sem voz
escuta ou eco.

Numero sonhos.
Catalogo-os pelos sobressaltos 
que me despertam. 
Indexo-os
pelo terror que instauram. 
Se são de esquecimento,  
quase sempre choro.
Quando são de escuridão
acordo cego. 

Numero sonhos
Peço
que sejam leves, não mordam
não me repitam
não me reflitam!

Renego sonhos.
Peco.