Porque existe a música, porque existe Pachelbel e especificamente porque existe Canon
& Gigue In D-Canon.
Que Vivaldi, Bach, Mozart, Beethoven, Mahler, ... me perdoem a ousadia, mas essa é uma das composições eruditas mais emocionantes que conheço.
E principalmente me perdoem aqueles que conhecem mais de música clássica do que eu.
Aqui pertinho, em Niterói, há a Orquestra de Cordas da Grota, um grupo que tive a feliz oportunidade de assistir em 2010 na Igreja da Candelária, no Centro do Rio. A Orquestra, além de prezar a formação musical e na educação complementar também fica de olho na inclusão social.
Mais do que um exemplo, um requinte (num país de tão poucas oportunidades nessa área).
O que Astor Piazzolla, Michel Legrand, Philip Glass, Quincy Jones, Lenox Berkeley, Claudio Santoro, Burt Bacharach, Leonard Berstein, Aaron Copland, Daniel Barenboim e Egberto Gismonti têm em comum? Nada?
Errado.
Nadia.
Todos eles foram alunos da professora Nadia Boulanger (1887-1979).
Sua avó era cantora lírica e seu avô violoncelista. Filha de um pianista com uma princesa russa, essa francesa começou a estudar órgão e composição aos seis anos. Aos dez entrou para o conservatório e começou a reger aos 25 anos, algo incomum para as mulheres naquela época.
Sua irmã mais nova, Lili Boulanger, seguia os passos da família. Em 1913, aos 19 anos, se tornou a primeira mulher a ganhar o Prix de Rome (Nadia tirara o segundo lugar, cinco anos antes).
Porém, em 1918, aos 24 anos, Lili morre e Nadia, profundamente abalada, decide nunca mais compor. Neste instante começa a carreira de uma das maiores professoras de música de todos os tempos. Seu alunos a descreveram como tão exigente quanto afetuosa. Disseram que ela era capaz de sugerir mudanças que podiam modificar totalmente a estrutura de uma obra com a mesma simplicidade que oferecia um café. E imediatamente após escutá-la pela primeira vez.
Leonard Berstein beija a mão da mentora
Seu grande amigo, Igor Stravinski, enviava-lhe todas as suas composições tão logo as finalizava para que Nadia pudesse emitir uma opinião.
Como nem ela ou sua companheira Annette Dieudonné, registraram seus alunos particulares conhecemos apenas aqueles que estudaram com ela no Conservatório Americano, em Fointeneblau, e no conservatório de Paris mas mesmo assim a lista é imensa. No excelente documentário Mademoiselle Nadia Boulanger, de Bruno Monsaingeon (disponível no youtube com áudio em francês e legendas em inglês) fala-se em milhares.
Pequeno trecho do documentário
Nadia foi venerada por muitos de seus pupilos e reconhecida mundialmente. Para se ter uma ideia, em 1967, por ocasião dos seus 80 anos, houve uma apresentação de gala da Ópera de de Monte Carlo (penso que em Monte Carlo todas as apresentações são de gala), com algumas de suas peças favoritas. No programa distribuído aos convidados a reprodução de uma litografia de Marc Chagall onde se lê "Pour Nadia Boulanger 1967", presente encomendado pelo príncipe Rainer e pela princesa Grace.
Vincent Crane foi um talentoso compositor e instrumentista. Fundador e líder do Atomic Rooster, uma das mais influentes bandas de rock progressivo do início dos anos 70, Crane amava gatos. Chegou a ter 30 deles ao mesmo tempo. Conhecia-os pelos nomes e sabia de cor suas dietas alimentares.
Mas Crane sofria de um severo transtorno bipolar que o levou várias vezes à ser internado em diversas clínicas psiquiatras. Se não fosse por isso, possivelmente o Atomic Rooster teria alcançado uma projeção ainda maior. Talento não faltava à ele nem aos demais.
Meus álbuns favoritos são "Death Walks Behind You" (1970) e "In Hearing Of Atomic Rooster" (1971).
(A assustadora capa do "Death Walks Behind You" traz o Nabucodonosor de William Blake)
Crane morreu em 1989, aos 45 anos, de uma overdose de analgésicos. Sua música continua pulsante.
A menina, tão logo teve tamanho,
começou a estudar piano duas vezes por semana. Já no aniversário seguinte de
sua avó, tocou o tema da Lista de Schindler.
“-Essa menina é como o pai. Um prodígio, em tudo o que faz”,
disse vovô Oscar orgulhoso, causando ciúmes até em Rebeca.
Rick estimulava a filha, propondo
desafios e tratando-a como se tivesse dez anos a mais. Intuitivamente, ela
correspondia ao entusiasmo do pai com alegria, o que alimentava ainda mais em
Rick a certeza de que estava no caminho certo. A cada etapa superada ela era
premiada com pequenos direitos, como escolher o restaurante do fim de semana, e
até o destino da viagem de férias da família. A mãe da pequena nadadora,
pianista, bailarina, usuária de computador, estudante de várias línguas, não
aprovava tantas atividades. E menos ainda o caráter meritocrático da premiação
para uma criança que ainda nem tinha entrado para a escola. Mas ninguém lhe
dava ouvidos. Até Raja dizia que ela estava exagerando, “- Não tem nada demais,
filha. Errado seria não aproveitar o potencial que ela tem.”
Nem tudo dava certo. Um dia ele começou a alfabetizá-la. Mas
aos dois anos de idade ela não tinha o desenvolvimento necessário. Durante três
semanas ele tentou de tudo, desde as experiências bem sucedidas às técnicas de
vanguarda. Em vão. Em outra ocasião quis ensina-la a jogar xadrez. Desta vez
ela tinha a idade certa mas odiou o jogo a ponto de arremessar as peças pela
janela várias vezes. Ele queria saber o porquê da implicância para tentar
argumentar, só que quando Clara cismava... Nestas horas, Rebeca crescia na
argumentação, “-Estas atitudes são para reforçar sua individualidade. Ela está
gritando por espaço”. Porém ela também não compreendia certos rompantes, uma
sensibilidade à flor da pele, sem mais nem menos. Como aquela vez, quando
voltavam de viagem e uma borboleta se espatifou contra o pára-brisa do carro e
ficou grudada, as grandes asas azuis ampliando a minúscula tragédia.
“-Ela morreu ?”
Rick anteviu o drama e quis consertar,
“Sim filhinha, mas borboleta só vive mesmo alguns dias”.
Quando percebeu que dera a resposta
errada, era tarde demais.
“Por isso mesmo ela tinha que viver
mais” , e começou a tremer o lábio inferior, e logo o queixo. Já gemia quando a
primeira lágrima pingou no seu colo. Nos trinta e sete minutos seguintes,
chorou. Do pedágio até um pouco antes do carro entrar na garagem, quando pegou
no sono. Rebeca tentou acalmá-la cantando, propondo jogos, tirando da bolsa um
kit de brinquedos salvadores e até oferecendo chocolate (o que em outras
circunstâncias irritaria Rick). Nada surtiu efeito. Entre soluços, esboçava
“-Só vi-vi-vi-ve me-me-mes-mo al-al-alguns di-di-di-as, só vi-vi-vi-ve
me-me-mes-mo al-al-alguns di-di-di-as ”. Rick, sem saber o que pensar, acelerava
mais e mais a Pajero.