segunda-feira, 6 de agosto de 2012

DESCOMPASSO



Limpa, a nave jaz agora
onde foi parar aquela pertença?
os linhos estão frios 
e o roçar dos nervos encerram
uma erupção de pouca lava.

Envergonho-me,
Peco à esquerda novamente.
Imagens tantas vezes vistas
não revelam o que foi antes, o agora e a era.
Sim, vai!

Branca, a nave jaz agora
onde foi parar aquela premência?
O aguardo do tempo 
e o estar em ti, ausente,
leva minha carne ao descompasso.

Cubro-me,
mordo o rebordo da boca
enquanto consome-se a queda.
A mobília não percebe (poderia?)
que são outras as cercas, as pedras e a cal.
Não! Acerca! 

domingo, 5 de agosto de 2012

PACHELBEL E A GROTA


Porque existe a música, porque existe Pachelbel e especificamente porque existe Canon & Gigue In D-Canon.
Que Vivaldi, Bach, Mozart, Beethoven,  Mahler, ... me perdoem a ousadia, mas essa é uma das composições eruditas mais emocionantes que conheço.

E principalmente me perdoem aqueles que conhecem mais de música clássica do que eu.

Aqui pertinho, em Niterói, há a Orquestra de Cordas da Grota, um grupo que tive a feliz oportunidade de assistir em 2010 na Igreja da Candelária, no Centro do Rio. A Orquestra, além de prezar a formação musical e na educação complementar também fica de olho na inclusão social.

Mais do que um exemplo, um requinte (num país de tão poucas oportunidades nessa área).



N.B.


O que Astor Piazzolla, Michel Legrand, Philip Glass, Quincy Jones, Lenox Berkeley, Claudio Santoro, Burt Bacharach, Leonard Berstein, Aaron Copland, Daniel Barenboim e Egberto Gismonti têm em comum? Nada?
Errado. 
Nadia.
Todos eles foram alunos da professora Nadia Boulanger (1887-1979). 


Sua avó era cantora lírica e seu avô violoncelista. Filha de um pianista   com uma princesa russa, essa francesa começou a estudar órgão e composição aos seis anos. Aos dez entrou para o conservatório e começou a reger aos 25 anos, algo incomum para as mulheres naquela época.
Sua irmã mais nova, Lili Boulanger, seguia os passos da família. Em 1913, aos 19 anos,  se tornou a primeira mulher a ganhar o Prix de Rome (Nadia tirara o segundo lugar, cinco anos antes). 
Porém, em 1918, aos 24 anos, Lili morre e Nadia, profundamente abalada, decide nunca mais compor. Neste instante começa a carreira de uma das maiores professoras de música de todos os tempos. Seu alunos a descreveram como  tão exigente quanto afetuosa. Disseram que ela  era capaz de  sugerir mudanças que podiam modificar totalmente a estrutura de uma obra com a mesma simplicidade que oferecia um café. E imediatamente após escutá-la pela primeira vez.


Leonard Berstein beija a mão da mentora

Seu grande amigo, Igor Stravinski, enviava-lhe todas as suas composições tão logo as finalizava para que Nadia pudesse emitir uma opinião.
Como nem ela ou sua companheira Annette Dieudonné, registraram seus alunos particulares conhecemos apenas aqueles que estudaram com ela no Conservatório Americano, em Fointeneblau, e no conservatório de Paris mas mesmo assim a lista é imensa. No excelente documentário Mademoiselle Nadia Boulanger, de Bruno Monsaingeon (disponível no youtube com áudio em francês e legendas em inglês) fala-se em milhares. 



Pequeno trecho do documentário

Nadia foi venerada por muitos de seus pupilos e reconhecida mundialmente. Para se ter uma ideia, em 1967, por ocasião dos seus 80 anos, houve uma apresentação de gala da Ópera de de Monte Carlo (penso que em Monte Carlo todas as apresentações são de gala), com algumas de suas peças favoritas. No programa distribuído aos convidados a reprodução de uma litografia de Marc Chagall onde se lê "Pour Nadia Boulanger 1967", presente encomendado pelo príncipe Rainer e pela princesa Grace.




sábado, 4 de agosto de 2012

COTIDIANOS (VERÃO)


I

31 de dezembro
revellion
praia
champanhe
vela pra Iemanjá
orações
reflexões
o ano que termina
o ano que começa
espíritos elevados
desejos de paz
beijos fraternos ... De repente:
- Amor, pára de olhar pra bunda daquela mulher!

II

Calor carioca
ou senegalês?
Cansaço
briga no escritório.
O elevador enguiçou?
Tudo bem, são só dezessete andares.
Tomo um taxi?
Eu mereço.
Passa um, outro,
todos cheios
essa não, chuva de verão!
Enfim um vazio.
-Para aonde vamos?, pergunta o motorista.
E quem sabe?

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

TEMPOS IMPERTINENTES



Amei, 
aos dezessete, 
como se não fosse chegar aos dezoito.
Aos vinte e um, como um construtor 
de catedrais eternas.
Aos trinta e três, com a paixão de um Cristo
e a vergonha de um Judas.
Aos quarenta, com a sede do lobo 
que lambe gelo no mais terrível dos invernos.

Hoje, 
amo como se não fosse chegar à meia noite,
com a paixão de um Judas,
um construtor de Cristos,
a vergonha de um inverno 
e a sede do gelo que lambe o lobo
na mais terrível das catedrais.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

CRANE, GATOS E O GALO ATÔMICO


Vincent Crane foi um talentoso compositor e instrumentista. Fundador e  líder do Atomic Rooster, uma das mais influentes bandas de rock progressivo do início dos anos 70, Crane amava gatos. Chegou a ter 30 deles ao mesmo tempo. Conhecia-os pelos nomes e sabia de cor suas dietas alimentares.



Mas Crane sofria de um severo transtorno bipolar que o levou várias vezes à ser internado em diversas clínicas psiquiatras. Se não fosse por isso, possivelmente o Atomic Rooster teria alcançado uma projeção ainda maior. Talento não faltava à ele nem aos demais.

Meus álbuns favoritos são "Death Walks Behind You" (1970) e "In Hearing Of Atomic Rooster" (1971). 

(A assustadora capa do "Death Walks Behind You" traz o Nabucodonosor de William Blake)

Crane morreu em 1989, aos 45 anos, de uma overdose de analgésicos. Sua música continua pulsante.









AS GRANDES ASAS AZUIS AMPLIANDO A MINÚSCULA TRAGÉDIA



A menina, tão logo teve tamanho, começou a estudar piano duas vezes por semana. Já no aniversário seguinte de sua avó, tocou o tema da Lista de Schindler.
 “-Essa menina é como o pai. Um prodígio, em tudo o que faz”, disse vovô Oscar orgulhoso, causando ciúmes até em Rebeca.
Rick estimulava a filha, propondo desafios e tratando-a como se tivesse dez anos a mais. Intuitivamente, ela correspondia ao entusiasmo do pai com alegria, o que alimentava ainda mais em Rick a certeza de que estava no caminho certo. A cada etapa superada ela era premiada com pequenos direitos, como escolher o restaurante do fim de semana, e até o destino da viagem de férias da família. A mãe da pequena nadadora, pianista, bailarina, usuária de computador, estudante de várias línguas, não aprovava tantas atividades. E menos ainda o caráter meritocrático da premiação para uma criança que ainda nem tinha entrado para a escola. Mas ninguém lhe dava ouvidos. Até Raja dizia que ela estava exagerando, “- Não tem nada demais, filha. Errado seria não aproveitar o potencial que ela tem.”
 Nem tudo dava certo. Um dia ele começou a alfabetizá-la. Mas aos dois anos de idade ela não tinha o desenvolvimento necessário. Durante três semanas ele tentou de tudo, desde as experiências bem sucedidas às técnicas de vanguarda. Em vão. Em outra ocasião quis ensina-la a jogar xadrez. Desta vez ela tinha a idade certa mas odiou o jogo a ponto de arremessar as peças pela janela várias vezes. Ele queria saber o porquê da implicância para tentar argumentar, só que quando Clara cismava... Nestas horas, Rebeca crescia na argumentação, “-Estas atitudes são para reforçar sua individualidade. Ela está gritando por espaço”. Porém ela também não compreendia certos rompantes, uma sensibilidade à flor da pele, sem mais nem menos. Como aquela vez, quando voltavam de viagem e uma borboleta se espatifou contra o pára-brisa do carro e ficou grudada, as grandes asas azuis ampliando a minúscula tragédia.
 “-Ela morreu ?”
Rick anteviu o drama e quis consertar, “Sim filhinha, mas borboleta só vive mesmo alguns dias”.
Quando percebeu que dera a resposta errada, era tarde demais.
“Por isso mesmo ela tinha que viver mais” , e começou a tremer o lábio inferior, e logo o queixo. Já gemia quando a primeira lágrima pingou no seu colo. Nos trinta e sete minutos seguintes, chorou. Do pedágio até um pouco antes do carro entrar na garagem, quando pegou no sono. Rebeca tentou acalmá-la cantando, propondo jogos, tirando da bolsa um kit de brinquedos salvadores e até oferecendo chocolate (o que em outras circunstâncias irritaria Rick). Nada surtiu efeito. Entre soluços, esboçava “-Só vi-vi-vi-ve me-me-mes-mo al-al-alguns di-di-di-as, só vi-vi-vi-ve me-me-mes-mo al-al-alguns di-di-di-as ”. Rick, sem saber o que pensar, acelerava mais e mais a Pajero.