terça-feira, 16 de outubro de 2012

AINDA SOBRE O CINZA

(concluindo ESTE)

Já fui atrás de azuis. Eu era daqueles que não podia ver um azul dando bobeira por aí que não sossegava enquanto não o conquistasse. Depois colecionei amarelos. E olha que amarelos não se deixam aprisionar facilmente. Pois não é que agora descobri que os cinzas me bastam!



NÃO É COR DE ROSA



O mundo é vermelho escarlate,
como o sangue que se espalha
quando venho, pela tarde,
desfilar meu coração.

O mundo é vermelho intenso
e só o que faz é dar voltas, 
se enrolar no próprio tempo
como faz este lamento.

O mundo é vermelho bandeira
que fez promessas jurou e tal
mas que vendeu suas utopias
ao mais baixo capital.

O mundo é vermelho esperança
invenção sem consequência
impossível na palheta
mas que na metáfora faz certa presença.

O mundo é vermelho paixão
rosa cortada em vaso d'água
murchando suas pétalas de dia
e na noite espinhos e solidão.

O mundo é vermelho morte
feito poça em chacina
e cheira forte
à carne inerte de gente sem sorte.

O mundo é vermelho vivo
mais do que nós!
Nosso amor, semente estéril
não germinou, para sempre, jaz.

domingo, 14 de outubro de 2012

SERÁ?



Será que realmente pareço uma criança
quando esfrego os olhos com os nós dos dedos?
Ou será apenas a imaginação dela
que vê um garoto desprotegido
quando estou apenas dormindo
com as mãos unidas sob o travesseiro?

Será que é porque acordo constantemente em pesadelos
e apavorado a abraço forte demais?

É que desde menino,
sempre tive medo das sombras,
daquelas sombras em movimento que os faróis dos carros projetavam no teto do quarto.
Abominava persianas.
E me lamentava pela alergia que proibia as cortinas.
Só ia dormir,
quando o sono era imenso,
e se acordava,  a qualquer hora,
não tentava mais.

Pareço uma criança quando me empolgo
com meus novos brinquedos?
É porque quero ver sempre o mesmo filme?
Talvez seja porque uso demais diminutivos,
invento nomes, apelidos que são quase gemidos.
E volta e meia retorno àquela conversa sobre um gato,
tão legal ter um gato, deixa que eu cuido,
prometo que você não vai ter trabalho.

Mas quando a toco
e me descontrolo de tanta excitação
é que finalmente aceito essa minha mutação.
Reconheço aquele menino saliente
que não sabia nada dessas coisas
e mentia aos colegas da escola que, é claro, também mentiam.
Pela casa a sigo,
mergulho em seu decote
para redescobrir o que já conheço tão bem.

Como minha falta de jeito a diverte!
Ri, quer saber por que só agora acredito.
Enquanto docemente me beija a boca,
furtiva, abre um botão da minha camisa,
e olho no olho diz
que eu sou seu homem,
mas também seu menino.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

FESTIVAL DO RIO



O Festival Do Rio chegou ao fim e não é que foi cumprida a comprida meta que me impus? (para quem trabalhou nesse período, é claro): 14 filmes em 14 dias.


Foram produções dos Estados Unidos (4),  Argentina (3), Brasil (1), Alemanha (1),  Austrália (1) , Irã (1),  Russia (1), França (1) e Colômbia (1). 



Meu top 3:


1) LORE de Cate Shortland, belíssimo drama que vai representar a Austrália no Oscar 2013.





2)ELETRICK CHILDREN, de Rebeca Thomas, filme americano muito interessante.





3) El ULTIMO ELVIS, filme argentino sobre o qual já escrevi aqui.






Até o ano que vem (ou melhor, até a repescagem na próxima semana!)

JOÃO 1:1



"No princípio era o verso. Quando virou verbo é que tudo degringolou."
Ela estava acostumada aos seus devaneios. Uma estrofe ao acaso, normalmente depois de um longo silêncio e quase sempre após terem transado. Puxou o lençol, e cobriu os seios. Notou que ele havia deixado uma marca bem ao lado de um dos mamilos. Era a segunda vez esta semana, na primeira a marcara seu pescoço. "Coisa de adolescente (que não somos mais)", pensou. 
Ainda não eram nem oito da manhã. Em silêncio repassou algumas das coisas que faria antes do trabalho: pagar uma multa do carro, marcar o cabeleireiro, comprar pão de forma, arrumar a mochila com a roupa da academia. Ele permanecia imóvel e calado.  Cochilava?  Ou perseguia outro verso?
De repente, sem que tivesse planejado ela o surpreendeu. E a si própria! Na fração de segundo entre ter tomado a decisão de se levantar e o momento que seus músculos obedeceriam, pronunciou aquilo que resumia e enfatizava suas diferenças: "No princípio era o verbo. Quando virou verso é que tudo degringolou." E diligente, partiu para enfrentar o dia.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

POÉTICA




Queria um poema enxuto
com poucos advérbios
mas as lágrimas não deixam
e a métrica exata
o choro impede.

Queria um poema elegante
com porte de erudito.
Pena, não vai dar:
ontem eu fui despedido!

Queria um poema redondo
sem arestas a aparar
mas às vezes, nesse mundo,
tudo é tão irregular.

Queria um poema rimado
com bom gosto, musical
fica pra próxima, agora
não vejo um bom final.

Queria um poema acadêmico
pra recitar nos salões
mas se peço licença, a vida
quase sempre me diz não.

domingo, 7 de outubro de 2012

FATOS E FOTO

A poesia de BORGES só melhorou nesses dez anos. Já a minha carcaça....


Mas afinal de contas é isso mesmo que esperamos. Das palavras e da carne.