sexta-feira, 20 de julho de 2012

FIZ-ME



Não acredito em dias sem sol
principalmente naqueles nos quais cortam 
rajadas de vento polar.
Nem em franjas de chuva
(por mais espetaculares que sejam).

Mas mesmo nos invernos 
houve dias que se excederam.
Neles, entre cobertas e promessas,
fiz-me definitivamente feliz.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

ACONTECEU NO ENGENHÃO



The Wall foi um dos álbuns da minha adolescência. Lembro de ir a um dos cinemas que ficavam na praça Saens Peña, com meu irmão Gilberto e meu primo Marcello, assistí-lo duas, três vezes seguidas no mesmo dia. Com a anuência de um lanterninha legal (sorry juventude se vocês não sabem o que é  isso) saíamos para ir ao Bob's fazer um lanchinho rápido. Pois bem: No dia 29 de março desse ano assisti ao meu terceiro show do Roger Waters, desta vez tocando o The Wall na íntegra. Foi uma experiência, como dizer? Definitiva!
Explico, a seguir, um dos motivos do porquê.

No filme Relíquia Macabra (The Maltese Falcon, 1941) o detetive particular Sam Spade é contratado para encontrar uma mulher e acaba resolvendo um caso de  roubo e assassinado por causa de uma estatueta de falcão. Todos nós temos relíquias, macabras ou não. Cada um sabe que objetos merecem a sua devoção: cds, álbuns de figurinhas, joias, sapatos. Cada um sabe o que seria capaz de fazer para obtê-los.



Na parte final do show, o porco inflável que havia sobrevoado o público desce e é sacrificado por esse próprio público. Enquanto isso,  no palco, o muro é implodido. Dois sinais claros da transformação da matéria e sinais que nós mesmos também estamos nos transformando. Por um momento ficamos na dúvida se o porco deveria ter tido mesmo aquele fim. Por um momento não queremos acreditar que teremos que seguir em frente. Por um momento queremos que o falcão maltês nunca seja encontrado.
Ao meu ver, Waters não se livrou completamente do trauma da cusparada (obrigado EVANDRO pela aula). E segue sacrificando seus porcos, dia após dia, show após show, para lembrar-se de que há finitude, no sucesso e na vida (na turnê anterior o porco se perdia nos céus).
Ganhei do Bruno Najjar (que ajudou a trucidar o bichano. Obrigado novamente), um retalho do suíno voador. Não precisei matar ninguém como no filme, não precisei expurgar nenhum trauma.  
Provavelmente o colocarei numa moldura como fazia  Jonh Huston, o diretor do filme, com as carcaças dos animais que abatia em safaris pela África. Não para lembrar do show, já que não há como esquecer mas para materializá-lo (desde a adolescência, quando me engalfinhava por palhetas lançadas pelos guitarristas de Heavy Metal não tenho essa possibilidade).



quarta-feira, 18 de julho de 2012

INTERVENÇÕES URBANAS (PARTE 4)


Se o alcaide da cidade, através de sua política legalizante (somente no discurso, é claro), não se intrometer no trabalho dos artistas, em breve seremos conhecidos também pela qualidade de nossa arte urbana.















domingo, 15 de julho de 2012

MENSAGEM NA GARRAFA




Imagem que se sustenta
na simbiótica aliança
entre a esperança e o improvável,
a mensagem na garrafa
menos desespera quem a escreveu
e mais àquele que a encontrou.


Ao mar revolto ou à suave bruma
abandonado, esse bilhete
de amor
de desabafo
de súplica
de cólera
(no fundo são todos de suicídio)
quando em quaisquer mãos caem
as tornam impotentes, ao instante.


Só que a verdadeira mensagem é a garrafa
já que no fim,
as palavras são tantas
que se tornam inúteis.
A garrafa comunica o terror,
de quem clama por atenção
a qualquer desconhecido.


Também lanço minhas garrafas
quando cruzo olhares
no sinal fechado
ou nos corredores do supermercado.
Decifrar os sentimentos contidos aí
não é tarefa para iniciantes.
É absolutamente necessário
já ter mastigado sofrimentos.


A mensagem na garrafa
é ferida profunda,
um inferno particular.
Condena aquele que a recebe
à dor de quem a escreveu.


E no fundo, é um querer
não ser encontrado
de quem não quer, 
jamais,
ser esquecido.



sábado, 14 de julho de 2012

A MORTE E O BÓSON



Eles se olham. Têm plena consciência do absurdo que é estarem ali sentados, num banco da Praça Paris, trinta e poucos anos depois de terem morrido.
O mais velho se chama Paulo Vieira mas usa, desde a juventude, apenas o sobrenome. Ele se recorda, é claro, da morte do melhor amigo, acontecida seis meses antes da sua. Jorge vinha de um fim de semana em Petrópolis. Descia a serra quando, sem aviso, seu coração minguou. Só teve tempo de parar  o carro no acostamento e ligar o pisca-alerta. Já Vieira morreu depois que a polícia do exército invadiu o apartamento onde sua célula do partido se reunia. Quando os "gorilas" entraram ele tentou correr para os fundos e acabou tropeçando.  Bateu a cabeça na quina da mesinha de centro, base de ferro fundido, tampo de mármore. Pronto, apagou e não acordou mais. 
Até hoje. 
Estranhamente estão calmos apesar de tudo que lhes está acontecendo.
Jorge experimenta novamente seu corpo, torce a pele do braço, toca seu cabelo. Aspira saborosamente o ar gelado da tarde de outono  e sente cócegas no nariz. É ele quem diz: 
"Não sabia que mortos sonhavam. Estamos sonhando, não é?"
Vieira não quer dar uma resposta precipitada, ele sempre foi assim, de pensamentos largos e palavras miúdas. 
Jorge continua: "Não sei explicar mas lembro de tudo, mesmo o que veio depois."
Vieira também. Sabe que destino teve de cada um de seus companheiros de luta.  Sabe também que sua viúva (é tão diferente pensar na esposa desse jeito) se casou novamente. Porém, mesmo esse, não é um conhecimento sofrido, está mais para uma plácida onisciência.
De repente, como se nada tivesse acontecido ambos se esgotam. Da mesma forma que reapareceram, retornam ao não-existir. Nem têm tempo de deixar qualquer marca de sua nova passagem. 
Não se tratou de uma brincadeira de Deus. Bem, quer dizer, a culpa foi todinha do Bóson de Higgs, esse danado!

quinta-feira, 12 de julho de 2012

POEMA CATÁRTICO



Todos os dias em mim
lutam o azul e o negrume
traduz-se memória
cresce a dúvida.

Todos os dias em mim
cintila o indizível
dissolve-se o instante
emerge a consternação.

Todos os dias em mim
correm sangue e espera
brota uma epifania
o que era só palavra faz-se verso.

Todos os dias em mim
habita o atônito.



INTERVENÇÕES URBANAS (PARTE 3)

Mais fotos, a mesma ideia: a cidade fica tão mais feliz com essas manifestAÇÕES



Sejam em um muro ou na passarela,


no caminho,


no portão,


na passagem,


na curva,


na garagem.




Em qualquer lugar,


Em qualquer mesmo!