terça-feira, 12 de junho de 2012
STRAWBERRY MOON
A manhã estava prestes
e a lua que reinara
por destino e por direito
assistia apreensiva
à iminência do sol.
E não era lua qualquer,
tinha nome de fruta.
E a astronomia a dar-lhe
história e explicação.
(Como se precisasse!)
Mas a manhã estava prestes,
as coisas no aguardo da praticidade.
A vida quase em suspensão.
Houve um instante de prontidão
e declínio em equilíbrio.
Um instante, e então:
a resplandecência do sol.
domingo, 10 de junho de 2012
NÃO, OBRIGADA
Vivemos fazendo ruídos. Choramos, rimos, gememos, fungamos, espirramos, assoamos o nariz, assoviamos, pigarreamos, tossimos, cuspimos.
Respiramos.
Trincamos nossos dentes, estalamos articulações, nos coçamos, arranhamos. E, é claro, cometemos toda a série de ruídos escatológicos.
Também arrastamos cadeiras, quebramos copos, ligamos máquinas, inventamos e tocamos instrumentos, abrimos gavetas, fechamos portas, lançamos foguetes, derrubamos muros, puxamos gatilhos e explodimos bombas. Ocasionalmente esbarramos em outras pessoas que, como nós, também fazem ruídos.
Mas principalmente falamos. E nada é mais inútil. Nada produz mais enganos. Ou mentiras. Tenho certeza que os surdos mudos mentem menos. Falar é uma terrível facilidade. A oportunidade que faltava para o criminoso em potencial. A mutação que nos tirou a chance de salvação.
Agora, só falo o absolutamente necessário. Prefiro me comunicar por e-mail. Uso o celular apenas para enviar e receber mensagens. Evito contatos com quem não posso me desvencilhar dessa ridícula convenção. Não ando mais de elevador, por exemplo, ou tomo táxis. Para quê? Para ter que escutar: “será que vai chover?” Não, obrigada. Ou então ter que desejar “bom dia” se o que quero é um pandemônio?
Minha mãe pensa que é uma fase, meu pai finge que não vê. Eles não se vangloriavam da sua precoce leitora de Kant? Não me criaram para que eu conquistasse meu livre arbítrio? Pois é isso que quero fazer dele. Que contem aos seus ridículos amigos, nos jantares de sábado, da mesma forma que faziam quando eu recitava Fernando Pessoa.
Abrir a caixa de Pandora ainda cobra o seu tributo.
Antônia diz que essa é mais uma esquisitice minha. Pode ser. Mas que moral ela tem para me criticar? Cansei de vê-la dispensar um lugar recém desocupado no metrô lotado só para não sentir a quentura que ficou no assento. “- É nojento. Aquele calor invade a gente pelos fundilhos, aposto que as bactérias vem junto”. Depois numa festa, beija oito ou nove carinhas que nunca viu, e não vê falta de higiene nisso.
FUGIR SORRATEIRAMENTE, ESCAPULIR, SAFAR-SE, CORRER
É da natureza das pessoas colecionar. A maioria nem percebe que faz isso. Ruth coleciona discos. Rick coleciona beijos. Julio coleciona queijos. Dona Ermínia coleciona histórias. Meu pai coleciona dívidas. Minha mãe coleciona boas ações. Meu irmão coleciona expectativas. Quati coleciona as doenças que seu cachorro já teve. Pereira, o tio de Quati, coleciona gibis (os quais pego emprestado uma vez por semana). Minha tia Gilda coleciona baldes ( tem um para calcinhas, outro para toalhas de banho, outro para camisas,...). Ana coleciona sacolas de supermercado. Vasquinho, o moço que atende na padaria, coleciona revistas de mulher pelada (as quais pego emprestado dia sim, dia não). Nico coleciona miniaturas Revel, a maioria de aviões, que cola e pinta com uma paciência irritante. As pessoas pensam que eu coleciono dicionários, mas isso é só um disfarce. O que coleciono mesmo são as palavras. As melhores, eu guardo. Absorvo cada significado, avalio intenções, considero possibilidades, pondero sobre o poder de suas sonoridades. Mas o melhor de tudo é utilizá-las depois. Aproveito qualquer oportunidade e se elas não aparecem, as invento.
Na quinta-feira, bastou Angelina se levantar apressada, logo que bateu o sinal do recreio, esbarrando em todo mundo, que eu disse bem alto para todos escutarem, “Lá vai a Angelina, ciscando.” Conhecida comoa esquentadinha, ela não deixaria isso de graça. Parou na porta da sala, deu meia volta, Com o pé esquerdo de lado e de dedo em riste atacou “Ei, cara de mongol, você esta me chamando de galinha ?”
A galera fez “Uhuh!!!!” , esperando o confronto. Calmamente tirei do bolso uma folha de caderno e entreguei-lhe. A medida que lia foi ficando vermelha porque sentiu que tinha caído numa armadilha. Na folha, eu havia copiado:
Ciscar
Verbo transitivo direto
1 tirar ou afastar ciscos, gravetos, folhas etc.
transitivo direto
2 juntar, reunir (folhas secas e outros detritos) com o ciscador.
transitivo direto
3 limpar (terra) de gravetos, ramos queimados etc.
transitivo direto e intransitivo
4 Regionalismo: Brasil.
esgaravatar (solo), revolver cisco (falando de aves, esp. da galinha)
Ex.: uma galinha ciscava; rolinhas ciscavam aqui e ali em busca de alimento.
transitivo direto
5 livrar do que é prejudicial; desinçar, limpar.
Ex.: ciscou o jardim
intransitivo e pronominal
6 Uso: informal.
fugir sorrateiramente, escapulir, safar-se, correr
Ex.: quando viu o adversário ciscou.
“Eu usei no sentido de escapulir. Repare, na lista, é o último significado. Mas pode escolher outro que lhe deixe mais à vontade. Sabe, Angelina, você deveria ler mais, Naquela hora, sua intenção não seria me xingar de mongolóide ao invés de mongol ? Mongol é quem nasce na Mongólia”.
Bem, eu também coleciono gente que não gosta de mim, o que não é um grande problema, porque Dona Ermínia me contou que ninguém tem, ao mesmo tempo, mais do que trinta pessoas que gostam realmente dela, no mundo todo. Nesse dia, fiz uma lista de quem eu achava que gostava de mim e contei vinte e cinco pessoas. Pareceu um bom número. Às vezes eu retiro um nome da lista, outras vezes, acrescento outro. No momento, há vinte e três.
AH, SIM! MINHA AVÓ CONTAVA HISTÓRIAS
Ah, sim! Minha avó contava histórias. Essa era sua verdadeira especialidade. Algumas eram sobre meu avô, que começou a vida como aprendiz de queijeiro, lá na Itália. Mas também contava histórias fantásticas de cavaleiros que nem sempre salvavam princesas, de bruxas que ferviam gente em caldeirões para roubar-lhes o sumo da vida e ciganos horrendos que roubavam crianças. Podia ser também de bárbaros que eram grandes cavaleiros, princesas horrendas e até mesmo de bruxas que salvaram crianças. Os finais eram sempre inventados. E jamais repetia um do mesmo jeito. Por causa disso, ao invés de dormir eu tentava ficar acordado o máximo possível. No início eu achei que a medida que sua paciência se esgotava ela ia matando seus personagens, até que não restasse nenhum. Depois, percebi que de qualquer jeito ela os matava. Uma noite não resisti: “- Vó, por que nas suas histórias todo mundo morre no final?” Ela suspirou como quem diz “-Até que enfim ele perguntou” e amavelmente disse ao seu neto de quatro anos, e com sinceridade:“-Para que você vá aprendendo que é assim que as coisas são. No final, morreremos todos, bons e maus.” Mas até que eu gostava disso. Aprendi a comandar vida e morte, só com um fechar de olhos. Quando eu simpatizava com algum mago ou soldado, fingia dormir bem na hora em que ela ia matá-lo, e o salvava. Naquela época eu ainda acreditava em Deus e pensei que se Ele estivesse fingido que dormia, minha mãe não teria morrido.
4'33'
(Inspirado (e muito) por John Cage em seu: “Da CONFERÊNCIA SOBRE O NADA”)
Estes pensamentos impuros
as lembrança dos amores
as verdades e as certezas
as mentiras descaradas.
Não conto porque não tenho
nada a dizer.
As paixões de ontem
os desprezos de todo dia
as maldades iminentes
e as faltas cometidas.
Não conto porque não tenho
nada a dizer.
Não é falta de coragem
nem é vergonha ou teimosia
não temo
ou me escondo.
Simplesmente não tenho
nada,
nada a dizer.
(mas o estou fazendo).
quinta-feira, 7 de junho de 2012
EU NÃO SOU UM CARA SENTIMENTAL
Eu
não sou um cara sentimental. Isso não quer dizer que eu não tenha sentimentos
como todo mundo. Antes de me tornar o que sou, fui muitas outras coisas. Fui
até poeta. Meu irmão dizia que não, que eu nunca passei de um poeteiro. Um
poeteiro pretensioso. Não que ele entendesse alguma coisa sobre poesia, mas
ainda assim ele poderia estar certo. Mas ainda que eu nunca tenha tocado a
poesia, ela sempre deu um jeito de me alcançar. Como a luz do sol que, pela
manhã, procura frestas na persiana até me acordar. Vou repetir: eu não sou um
cara sentimental. Mas para que negar o óbvio? Eu tenho sentimentos, até demais.
E se de dia as responsabilidades os mantém trancados em algum porão, à noite
eles escapam e correm pelas ruas ou pelo teclado do laptop num frenético safari.
É que sentimentos são vorazes predadores que se alimentam de gente solitária,
como eu próprio. Ah, e como se saciam, os danados! Quando eu era jovem
acreditava que eles eram apenas metáforas, mas a medida que envelheci percebi
que são concretos como um bloco de mármore, ou uma faca de açougueiro. Para
complicar as pessoas quase nunca têm a mesma percepção sobre um determinado
sentimento. O amor, por exemplo, está longe de ser o sentimento idealizado pelo
cinema ou pela literatura. O amor é uma classificação genérica para uma uma
penca de sentimentos. Ah, se tivéssemos a coragem de denominá-los adequadamente
! Principalmente, se conseguíssimos escutar outra coisa ao invés de "eu te
amo", sem que nosso mundinho se rompesse em mil pedaços. Perdoe se insisto:
Eu não sou um cara sentimental. E meus sentimentos não são melhores do que os
de qualquer um. Muitas vezes, inclusive, são piores. Mas se dizem que não tenho
coração sou obrigado a discordar. Porque mesmo pulsilâmine, é ele o órgão que
melhor me traduz. Com suas cavidades e válvulas arrastando os sangues bom e
ruim para seus destinos. Mesmo que seja impossível decidir se o bom é o que
leva o oxigênio fresco ou o que traz o gás consumido. Como o amor e ódio, que
se complementam e ajudam a me definir. Alguém me disse, numa ocasião, que para
amar é preciso, certas vezes deixar o amor transmutar-se em ódio. Um ódio puro,
intransitivo, sem desdobramentos. Se isso procede então estou apto a me tornar
um grande amante. E nem me lamento se isso não faz de mim uma pessoa boa. É que
as pessoas "boas" que conheci se orgulhavam tanto dos seus
sentimentos e intenções! Diziam que o mal estava nos outros e no mundo. Nunca
decidi se eram apenas hipócritas ou se realmente ignoravam o óbvio: o Mal vive
em nós e somente em nós. E em cada um de nós, sem exceção. Por favor não se
esqueça, eu não sou um cara sentimental. Absolutamente.
Quando minha voz sai
embolada não é de emoção por ter assistido o fofíssimo comercial de margarina
cheio de crianças e cachorros. E nem porque sofri um tardio arrebatamento pelas
"coisas simples da vida". Provavelmente, bebi demais. Ou então, é
culpa da poesia.
TONS DE CINZA
Para que milhões de cores na tela
se só alcanço os tons de cinza?
Como captar matizes tão diversas
se o foco embaçou
e só a imaginação consegue
aquilo o que os sentidos perdem?
Tantos vermelhos!
De sangues, auroras
estrelas de todas as grandezas,
bocas, mordidas, lençóis.
As cores não têm nome
mas um complicada numeração
tecnologia de ponta, caríssima
e alta definição.
E apesar de tudo isso,
eu só alcanço os tons de cinza.
Não são meus olhos, garanto,
talvez seja o meu coração.
Tem algo ver com os medos,
pigmentos na minha ilusão.
Cores, muitas cores,
palhetas sem fim!
De pedras, areias, ventanias.
De animais raros,
ameaçados, extintos.
Penas, couros, peles,
cores dos seus olhos e dentes.
Cores das tatuagens
que te decoram a carne.
Cores de cada encontro
furtivo
e de cada madrugada acordado.
Cores das fantasias e sonhos
dos desfiles de carnaval.
Cores que lembram
as noites mais escuras,
amarelos do sol,
clarões da lua.
Azuis do céu,
verdes do mar,
marrons da terra,
laranjas, vinhos, caramelos.
Rosas de flores e flores rosas
cores de cravos, tulipas, azaléias,
margaridas, íris, hortênsias
orquídeas, girassóis, bromélias.
E ainda das árvores,
das folhas, capins
das sementes,
matos,
raízes, caules,
galhos, cipós.
E há tantos brancos,
tantos brancos!
Como nunca imaginei que existissem!
Como nunca imaginei que pudessem!
Cores luminosas,
translúcidas, pastéis
sólidas, metálicas
quentes, mornas,
frias, gélidas.
Cores de invernos secos,
verões chuvosos,
primaveras.
Cores de outonos e ainda,
cores da morte e da vida.
Mas eu,
só alcanço os tons de cinza.
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