quinta-feira, 11 de outubro de 2012

FESTIVAL DO RIO



O Festival Do Rio chegou ao fim e não é que foi cumprida a comprida meta que me impus? (para quem trabalhou nesse período, é claro): 14 filmes em 14 dias.


Foram produções dos Estados Unidos (4),  Argentina (3), Brasil (1), Alemanha (1),  Austrália (1) , Irã (1),  Russia (1), França (1) e Colômbia (1). 



Meu top 3:


1) LORE de Cate Shortland, belíssimo drama que vai representar a Austrália no Oscar 2013.





2)ELETRICK CHILDREN, de Rebeca Thomas, filme americano muito interessante.





3) El ULTIMO ELVIS, filme argentino sobre o qual já escrevi aqui.






Até o ano que vem (ou melhor, até a repescagem na próxima semana!)

JOÃO 1:1



"No princípio era o verso. Quando virou verbo é que tudo degringolou."
Ela estava acostumada aos seus devaneios. Uma estrofe ao acaso, normalmente depois de um longo silêncio e quase sempre após terem transado. Puxou o lençol, e cobriu os seios. Notou que ele havia deixado uma marca bem ao lado de um dos mamilos. Era a segunda vez esta semana, na primeira a marcara seu pescoço. "Coisa de adolescente (que não somos mais)", pensou. 
Ainda não eram nem oito da manhã. Em silêncio repassou algumas das coisas que faria antes do trabalho: pagar uma multa do carro, marcar o cabeleireiro, comprar pão de forma, arrumar a mochila com a roupa da academia. Ele permanecia imóvel e calado.  Cochilava?  Ou perseguia outro verso?
De repente, sem que tivesse planejado ela o surpreendeu. E a si própria! Na fração de segundo entre ter tomado a decisão de se levantar e o momento que seus músculos obedeceriam, pronunciou aquilo que resumia e enfatizava suas diferenças: "No princípio era o verbo. Quando virou verso é que tudo degringolou." E diligente, partiu para enfrentar o dia.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

POÉTICA




Queria um poema enxuto
com poucos advérbios
mas as lágrimas não deixam
e a métrica exata
o choro impede.

Queria um poema elegante
com porte de erudito.
Pena, não vai dar:
ontem eu fui despedido!

Queria um poema redondo
sem arestas a aparar
mas às vezes, nesse mundo,
tudo é tão irregular.

Queria um poema rimado
com bom gosto, musical
fica pra próxima, agora
não vejo um bom final.

Queria um poema acadêmico
pra recitar nos salões
mas se peço licença, a vida
quase sempre me diz não.

domingo, 7 de outubro de 2012

FATOS E FOTO

A poesia de BORGES só melhorou nesses dez anos. Já a minha carcaça....


Mas afinal de contas é isso mesmo que esperamos. Das palavras e da carne.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

POEMA SEM TRÉGUA





Este é um poema sem trégua
às nossas vidas burguesas
de todos os tamanhos.

Quando trocamos nossas economias éticas e morais
pelo contra-cheque  no fim do mês,
pelas drogas para dormir,
devíamos ter desconfiado.

Este é uma poema sem trégua
ao teu fundamentalismo barato.
O arpão que fere a baleia
faz jorrar sangue no mar.
Não carrego culpas inventadas
nem penas hereditárias.

Este é um poema sem trégua
a tudo que me faz inerte.
Serei a onda que a cauda da baleia
faz, e que vira o barco.
Ontem comprei um livro em chinês
sobre música quadrifônica.
Vou aprender chinês, estudar música
e talvez leia o livro.

Este é um poema sem trégua
ao tempo desperdiçado
naqueles anos de engajamento.
a praça cheia de fé e gritos.
Enquanto nos beijávamos
os discursos se inflamavam.

Este é um poema sem trégua
à maldade dissimulada na virtude,
da mulher que faz profecias.
Não contarei histórias exageradas
nem tirarei fotos da baleia morta.

Este é um poema sem trégua
a qualquer estado das coisas
que não rume para o novo,
não troque de lugar.
Sou o pescador de baleias
que mesmo sem barco,
nunca desistirá.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

EL ULTIMO ELVIS


Da penca de bons filmes que tenho assistido no Festival do Rio nenhum me impressionou mais (pelo menos até agora) do que EL ULTIMO ELVIS, do diretor argentino Armando Bo (também um dos roteiristas e produtor).


O filme conta a história de Carlos Gutierrez, um operário que faz cover do rei do rock em casamentos, bingos e pequenos clubes do suburbio, e que confunde sua própria existência com a do ídolo. O personagem, construido à moda e tormenta shakespeareana, é representado brilhantemente pelo arquiteto e professor universitário Jonh McInerny (em sua estreia nas telas). Com humor e dor na dose certa, o filme mostra a agonia de Carlos, quando ele precisa cuidar de sua filha pequena justamente quando se aproxima o dia que ele considera o mais importante de sua carreira.


Se fosse em Hollywood, McInerny e Bo já seriam favoritos para levar estatuetas do Oscar para casa. A direção de arte de Daniel Gimelberg também impressiona.


Pela temática e pelo tratamento cinematográfico do tema não pude deixar de lembrar do O LUTADOR (2008), de Daren Aronofsky, aquele mesmo que "ressucitou" Mickey Rouke. Nos dois filmes os personagens buscam uma saída impossível para aquilo que fizeram de suas vidas.



INFÂNCIA




Já tive passarinhos,
cachorro,
sete gatos
já tive caxumba nas férias
e bicicleta sem cadeado.

Já tive moedas antigas
mil álbuns de figurinhas
já tive carrinhos de ferro
e tardes de só preguiça.

A infância é doce mesmo quando amarga.
É a consciência adulta que nos persegue
e nos massacra.

Minha infância é imagem de casa
de ravioli aos domingos
de montar forte apache
e de férias compridas.

Carnaval na serra
passeios à cavalo
beber água na fonte
meu pai fazendo churrasco.

Brincar de polícia e ladrão
descobrir revista de mulher pelada
jogar futebol de botão
muitos copos de cajuada.

A colega da escola,
gostar só olhando
tão cheio de medos
só me declaro sonhando.

No campinho da vila
bola nos fins de semana,
cinema, sandwich no Rick,
tudo me vem à lembrança.

Quase esqueço nessa nota
de cantar meu lamento.
É que a infância é tão rica
tão forte de sentimentos,
que tudo fica pequeno
corre mais devagar
e as deventuras da vida
a gente pode levar.