sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

ALGO SOBRE LÍNGUAS LUTANDO ESPADAS


1981

algo sobre línguas lutando espadas

Aos quinze anos, eu era inseguro, recluso, agressivo, meio sujo, um adolescente bem típico. Escondido atrás do cabelo que crescia enchendo em  vez de ficar comprido; roupas pretas mesmo no pior calor de verão. E era tão calado que meus colegas de turma, no primeiro científico, apostavam, todos os dias, quantas vezes eu iria abrir a boca para falar qualquer coisa. Como muitas vezes, discutiram sobre quem apostaria no um ou mesmo no zero, acabaram limitando que até cinco poderiam escolher o mesmo número e o dinheiro seria rateado entre os vencedores. A escolha era por ordem de chegada.
Havia um menino, o melhor aluno da classe, que quase nunca apostava porque não tinha dinheiro nem para a passagem de ônibus. Dava tanto calote que os fiscais dos pontos próximos à escola e os trocadores estavam de olho nele, prontinhos para dar-lhe uma surra. Ele precisava pegar ônibus onde não era conhecido, mas que não serviam, e depois outros para poder chegar em casa com segurança. Era um sujeito legal, não implicava com ninguém, então um dia quando subíamos as escadas em direção à sala de aula eu sussurrei para ele: “-Aposta no seis”. Ele falou ”-O quê? “mas eu já tinha acelerado o passo. Na hora das apostas ele ainda não tinha entendido e ficou de fora. Quando ele percebeu já era tarde demais. Neste dia eu falei seis vezes e ninguém ganhou ( a maior aposta tinha sido no três). Ao final da aula ele disse ”Obrigado”, mas eu estava zangado e respondi mostrando os dentes “- Não fala nunca mais comigo, seu CDF imbecil.” Ele não falou, e também nunca mais apostou.
Meus professores viviam sempre tentando me arrancar repostas, “estimulando-me a participar”. Um dia, durante um desses interrogatórios, acuado pelas perguntas em sequência e pelas risadinhas dos outros alunos, corri do fundo da sala, pulei sobre o professor de física, derrubando-o no chão. Comecei a berrar “- Pára, pára, pára !”. Ele ficou imóvel pelo susto, enquanto eu, descontrolado, batia-lhe no peito. A turma também não reagiu, foi preciso que os professores das outras salas viessem me conter. Meus pais foram chamados à direção. “-Não é caso para expulsão, o rapaz está passando pelas transformações da adolescência, sim estresse, vocês pensam que é só coisa de adultos, não! Acontece muito nessa idade. Nossa política é de ajudar. Só precisamos saber se ele teve algum problema de nervos antes”. Mas é claro, deram toda razão ao professor que exigiu que eu fosse encaminhado a um psicólogo. Meu interesse pelas matérias também não ajudava a compor uma figura sociável e acabei suspenso por uma  semana. Quando voltei  ninguém me perguntava mais nada, até os colegas evitavam se aproximar, as apostas pararam. Pelas costas eu era a encarnação daquele ditado que diz que quando você não serve para mais nada começa a servir de mau exemplo. Duas vezes por semana, como um bandido em liberdade condicional, eu deveria chegar mais cedo e me apresentar ao Serviço de Orientação Escolar para conversar com a supervisora. Na primeira vez ela explicou que tentaria estabelecer um vínculo, e ficou conversando sobre meus gostos, sobre o que eu fazia nas horas vagas. Não era feia nem bonita, nem nova nem velha, nem esperta nem estúpida. Eu até poderia ter gostado de estar ali, mas à medida que novos alunos com seus novos problemas começaram a aparecer, passou a me dar uns textos para ler e responder um questionário ao final. O primeiro fiz direitinho, mas desconfiado que ela não teria tempo de ler mesmo, passei a começar as frases corretamente e terminá-las sem sentido, algo como “Para alcançar nossos objetivos devemos comprar bananas e para fumar devemos vender baunilha no elefante azul.” Um dia, ela avisou que eu não precisava mais ir, “-Mas prometa que não vai arranjar mais encrencas”, “-Pode deixar, obrigado”.
Mesmo que tivessem dinheiro para pagar, meus pais não sabiam a diferença entre um psicólogo e um psiquiatra e tinham tanto medo de descobrir que não tentaram e, como ninguém na escola tinha tempo de acompanhar, o assunto foi esquecido.
Na semana seguinte, comecei a colar pelos pilotis da escola, escondido de todos, meu primeiro jornal. Era cheio de observações ácidas e espirituosas sobre a direção do colégio, professores, colegas. A coordenação tentou descobrir o autor, mas eu era esperto o suficiente para parecer tão idiota que meu nome não constava na lista de suspeitos.
Eu fazia cópias numa papelaria longe do colégio, para não levantar suspeitas. Num dia, enquanto esperava pelas cópias do número dezoito, cujo assunto principal eram as ligações obscuras entre a direção e a ditadura militar, como isso fazia que professores apadrinhados entrassem sem concurso, alguém deu dois toques com as pontas dos dedos no meu ombro e disse “-Então é você ! Eu até desconfiava”. Virei desconcertado e reconheci Claudia, uma menina de outra turma que gostava de Kiss e Van Halen, enquanto a maioria só queria saber de Air Supply e Kim Carnes. Eu a admirava por isso.
“Oi. Então agora acabou”, falei mostrando meu desapontamento por ter sido pego.
“Não! Eu gosto muito, juro que não vou contar a ninguém. Posso até te ajudar a espalhar. Você está sabendo que o bedel tem chamado os piores alunos e sugerindo que alguns pontos podem ser conquistados por aquele que entregar quem faz o jornal?
“Sei. Ele já me chamou.”
“Desculpe, não quis ofender.”
“Não tem problema.”
Na minha conta, Claudia foi a centésima quadragésima terceira menina pela qual me apaixonei à primeira vista e a ducentésima septuagésima quinta, contando todas as vistas.
“Ok.”
“Cara, as cópias estão prontas”, avisou o rapaz da papelaria. Peguei um papelzinho com a quantidade de cópias e fui até o caixa para pagar. Senti que ela me acompanhava com os olhos, e fiquei com vergonha. Eu precisava falar mais alguma coisa mas não sabia o quê. Alguma coisa que fizesse ela simpatizar mais comigo. Contava o troco e pensava, pensava, pensava, não podia ficar ali, moedas nas mãos, para sempre. Dividi as cópias em duas partes e perguntei “Você tem certeza de que quer fazer isso? É arriscado.”
“Quero muito. E não tenho medo”.
Aí, eu tive uma ideia.  Tão boa que até desconfiei que nem era minha. Disse, “Claudia, eu estava pensando, já há algumas semanas, em incluir uns resumos sobre discos de rock, quem sabe, se você estiver a fim, claro, pode dizer se não quiser, uma coisa não tem nada a ver com a outra, eu vou entender. Bem é o seguinte: estou convidando você para escrever esses comentários.” Ela ia me achar um imbecil, quase gaguejei, não tenho jeito mesmo. Mas, ao contrário do que poderia esperar, ela abriu um imenso sorriso (me apaixonei por ela pela segunda vez em cinco minutos), “Claro que eu quero”, disse tão alto que a caixa olhou para nós. Aproximou seu rosto do meu e me deu um beijo na boca. Não na boca, mas metade na boca metade no rosto. Rápido como um relâmpago. Fiquei arrepiado, então era isso que se sentia quando se beijava? Peguei no seu braço com a mão que não estava com os jornais, mas de repente eles caíram da outra mão e então a segurei com as duas. Desta vez, fui eu que me aproximei. Abri a boca mas não fechei os olhos com medo de errar e encostei minha boca nos seus lábios que se abriram ao toque. Há anos eu sabia o que era um beijo na teoria, tinha estudado os movimentos, observado milhares deles nos filmes, nas novelas e espiando as outras pessoas, mas, literalmente, o que eu sabia era da boca pra fora. O que deveria acontecer dentro eu só fazia ideia. Desde os nove anos eu perguntava. Primeiro ao meu irmão, depois ao Rick, ao Gil, até o Quati já tinha conseguido, mas ninguém nunca me explicou direito, algo sobre línguas lutando espadas. Então movi a minha até encontrar a dela (achei também um dente). Sim, o arrepio era real, só que mais forte. Por sorte, ela não abriu os olhos durante, então quando acabou fechei os meus rapidamente. Estava de pau duro e isso pareceu tão natural, nada a ver com o que sentia quando dançava de rostinho colado, coxa na coxa, e saía sem jeito, como se tivesse cometido um delito. Ela sorriu mais uma vez, nos abaixamos para catar os papéis (eu tinha me apaixonado pela terceira vez em seis minutos e trinta segundos, um recorde).
“Claudia, a gente podia conversar mais tarde sobre as resenhas? Hoje depois da aula?”, perguntei enquanto saíamos.
“Não, acho que não.“
“Só um papo rápido, a gente senta por aí, toma uma cerveja.”
 “Frank, eu já tenho namorado.”
“Eu também”. Queria falar alguma coisa inteligente, alguma coisa não inteligente, qualquer coisa, mais não vinha nada, só saiu essa mentira descarada.
 “Tchau Frank, a gente se fala no colégio , tá?”,
“Eu não falo no colégio. Sobre nada”.
“Xiiii, é mesmo, tinha esquecido! A galera lá da turma te chama de Frankenstein.”
“O criador ou a criatura?”
“A criatura, eu acho.”
“É que elas não sabem que quando o Doutor Victor criou o monstro, acabou sendo recriado por ele também. Isso faz de ambos, criadores e criaturas. Mas, nem tente explicar isso para eles porque eles são meio tapados, vão levar semanas para entender.”
“Você é mesmo esquisito.”
“Isso foi um elogio?”
“É, pode considerar como elogio.” E abriu outro sorriso.
Atravessei a rua para esperar o ônibus. Nem fazia ideia do que tinha dado certo ou errado.
Ela foi caminhando por baixo da marquise, para fugir do calor.
Pelo menos eu tinha beijado.

ONCE A LIFETIME


Poesia não se explica
Se o faz então não é
(pode ser um manual, relatório ou memorando).
Como explicar que considero nossa
uma música que ouço agora
e que provavelmente você nem conhece?
Ou como entender aquilo que meus olhos
mesmo fechados vêem?

Uma vez na vida a gente deixa de lado
a prosa do dia a dia.
Uma vez na vida a gente é verso.
O que me cabe é sem rima, estilo ou métrica.
Mesmo assim é bastante.
Uma vez na vida.

domingo, 23 de dezembro de 2012

TALVEZ

Heart Surgery de Douglas Ross


Depois de uns poucos sins e muitos nãos ela entendeu que na vida nada é mais definitivo do que um talvez. Nada aprisiona tanto, nada paralisa mais. Enquanto  sim ou não nos faz seguir em frente ou mudar de direção, o talvez nos deixa indefinidamente em compasso de espera. 
Ela deixou sua casa, apenas com a roupa do corpo, sem levar o celular ou seus documentos. Não deixou bilhete. Jamais telefonou.
Tomou um ônibus na rodoviária para uma cidade distante mil quilômetros da sua. Com o dinheiro que economizou por quase um ano alugou um  quarto de pensão. Uma semana depois já tinha um emprego de doméstica: casa, comida, salário. Exatamente como planejara. Vida nova. 
Vida!
Foi preciso fugir. Era isso ou então matá-lo. Não suportaria vê-lo preso, caso o denunciasse pelas surras que tomava nas madrugadas de sexta, quando ele chegava transtornado de cachaça e cocaína. 
A dúvida do que lhe aconteceu é o castigo dele. Gosta de imaginá-lo perguntando-se se um dia ela voltará. Talvez. 

HAPPY FAMILY


Vejo famílias saindo do cinema
completas e completamente felizes.
Será que foi o filme?

Vejo famílias saindo da galeria
de mãos dadas e andar seguro.
Será que foram as compras de natal?

Vejo famílias saindo de férias,
carro do ano cheio de malas.
Será que não esqueceram nada?

Vejo famílias saindo,
e me desequilibro. Será inveja 
ou é só meu labirinto?

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

NÓS NUNCA TIVEMOS REVEILLON



No ano em que a conheci meu pai morreu, faltando cinco dias para o natal de forma que enquanto ela assistia os fogos pipocarem em Copacabana eu e meus irmãos assistíamos minha mãe, no pequeno apartamento do Rio Comprido.
Um ano depois ela estava fazendo MBA na Inglaterra.
Nos dois anos seguintes eu fiquei de plantão, na residência médica.
No outro ano demos azar. Voltando de um congresso, não consegui embarcar de volta para o Brasil por conta de uma nevasca nos EUA.
Quando nada mais parecia atrapalhar nosso primeira virada juntos acabamos rompendo, no antepenúltimo dia do ano.
Tivemos, natais, dias dos namorados, feriados de todos os tipos, férias na praia,...
Não, nós nunca tivemos Reveillon.